Imagem: Casa do Saber

Byung-Chul Han

“Embora diametralmente oposta à angústia, a esperança é estruturalmente semelhante a esta […]”

Obra: O espírito da esperança: contra a sociedade do medo. Esperança como forma de vida. Vozes, 2024, Rio de Janeiro. Tradução de Milton Camargo Mota. De Byung-Chul Han (Coréia do Sul/Seul, 1959).

O “de quê” da angústia e o “em quê” da esperança estão no campo do indeterminado, fora de qualquer ideia concreta enquanto confere intensidade. Angústia e esperança então possuem um ponto comum na carência de objeto, e se dão de forma diversa do temor que se caracteriza por pressupor um “de quê concreto” (p. 82), argumenta o filósofo.

A esperança “determina e afina completamente nosso ser” e, nesse sentido, à semelhança da angústia, pode ser considerada um “modo de ser existencial” (p. 82). Em dezembro do ano passado pude ver essa explicação de Byung-Chul Han no mundo real. Entre pessoas angustiadas e esperançosas (eu fazia parte do segundo tipo) pude perceber o quanto ambas estavam em um modo existencial baseado apenas em expectativas, vivendo e pensando sob suposições e, diante do que não é possível determinar, ou controlar, não podiam apontar algo concreto para definir o encaminhamento de uma situação delicada.

Sobre o que o filósofo aborda acerca de Heidegger a priorizar a angústia para possibilitar o “ser-si-mesmo”, arrancando o “Dasein” pelo isolamento como fenômeno que encerra a alienação, o que soa o problema como algo “libertador”, mas na verdade é uma experiência que pode verter o ser para um caminho carregado de tristeza profunda que pode causar algo mais crônico. Na angústia se abre um abismo e como se orientar após esse colapso? (p. 84) O “Dasein” é apenas um instrumento sujeito a possibilidades factuais e determinadas (p. 85), assim entendi o desfecho dado pelo filósofo. Em suma, a angústia como processo do ” ser-si-mesmo” pode resultar em superação ou não. Pensei em um cliente que conversou comigo sobre um caso de depressão que acompanha de uma pessoa próxima, onde enfatizou o isolamento que o problema provoca e como os mais próximos ao depressivo sofrem, muitas vezes sem se darem conta de que a pessoa está sob ruínas de estruturas pelas quais vivia, muitas vezes sem questionamento (p. 83), e entender bem essa realidade de quem passa por isso é o passo inicial para saber lidar melhor com o transtorno crônico.

Não é preciso estar em uma UTI hospitalar esperando notícias para entender o quanto somos frágeis diante da imensidão de fatores pelos quais não temos qualquer poder de intervenção. A vida no cotidiano está repleta de situações onde estamos sujeitos a inúmeras variáveis, muitas delas desconhecidas, onde ter esperança significa uma forma de conceber a existência pela fé, indo além da razão para realizar ações pelas quais podemos definir como “banais”. Lembrei-me do que falei a um pastor um dia desses sobre a fé ser imprescindível a crentes e ateus. “Não posso ir à padaria da esquina para comprar pão sem ter alguma fé”, falei em meio a um sorriso de curiosidade em meu argumento. Fé aqui tem o sentido de que no cotidiano o que fazemos está baseado em expectativas ou na esperança de que tudo correrá bem; não há certeza absoluta de que nada de ruim ocorrerá nas coisas mais simples que realizo; não há razão que me dê suporte para lidar, de forma totalmente segura, com todas as variáveis envolvidas em meu ato de ir à padaria. Um assaltante pode estar à espreita no caminho, não posso garantir que um veículo desgovernado não me atinja, ou um tiroteio aconteça, um assalto no estabelecimento, ou uma calçada ceda e me engula, além de outras intercorrências que sequer posso imaginar. No entanto, vou a padaria tranquilamente sem pensar nessas coisas, na expectativa que a fé em Deus me oferece; vou na esperança que flui em mim, pois estou aberto ao “mundo pré-reflexivo” conforme meu “estado de animo” (aqui tomo por empréstimo os termos usados pelo filósofo, p. 82). E se eu fosse ateu? A fé teria que ser na vida em si, a esperança estaria da mesma forma a me influenciar para vivê-la com disposição.

Ninguém consegue viver bem sem alguma fé, contando apenas com a razão, porque o instrumental do raciocínio não tem acesso a todas as variáveis que possam ser controladas. Não tenho o conhecimento prévio de todas as coisas ou, no que refleti do filósofo acerca de que não é conhecimento, mas o meu estado de ânimo que me abre ao “ser-no-mundo” (p. 82). Então pensei, é uma ilusão apenas pensar que estou no controle da situação. Na verdade, estou no controle de algumas coisas que podem ou não ser suficientes. E onde a razão não alcança, entra a fé que alimenta a esperança. O mesmo pensei quando estava guiando na BR 232 sob chuva intensa em direção a cidade onde habita meu coração, na última sexta-feira, e percebi um grande fluxo de veículos em baixa velocidade (cerca de 60 km/h) e pensei sobre o quanto estava exposto a um risco, embora continuasse tranquilo por causa da fé. Pensei também sobre um veículo que passou rapidamente pela pista da esquerda (estimei em 90 km/h) e em uma curva quase entrou em aquaplanagem. Se isso tivesse ocorrido, um acidente grave ocorreria e fatalmente envolveria vários veículos, inclusive o meu. Não é possível conhecer previamente como ameaça, tampouco controlar, nem saber as motivações do motorista que decidiu correr em alta velocidade em uma pista sob condições tão desfavoráveis, colocando em risco a vida de várias pessoas.

Eis o lado em que predomina a esperança. Então pensei nas mesmas situações de maneira que estivessem sob angústia e o resultado é que simplesmente não conseguiria realizar as ações tão banais. Por isso, entendo que o tema neste capítulo de O espírito da esperança: contra a sociedade do medo, é profundo, essencial; diz respeito ao sentido da vida diante dos temores e das expectativas que temos no existir, o quanto se pode estar entre angústia e esperança, das situações banais às extraordinárias.

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