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Siddartha Gautama

“Não viva no passado, não sonhe com o futuro, concentre a mente no momento presente.”

Obra: A Doutrina de Buda. IV Aforismos sagrados. Capítulo II. O caminho da realização prática. Martin Claret, 2005, São Paulo. De Siddartha Gautama (Nepal/Lumbini, ~ 563 a. C. – 483 a.C.).

O que significa “viver no passado”?

Será que uma forma de não viver no passado é esquecê-lo? Ignorá-lo?

“O segredo da saúde da mente e do corpo está em não lamentar o passado” (p. 126), eis o contexto desta doutrina. Nesse sentindo, penso, recordar o passado para cair em lamentos seria vivê-lo, na visão de Buda.

Não há como mudar o passado, e se junta a essa obviedade: não há como encontrar uma forma melhor de viver o presente fazendo uso apenas da consciência que se tem do passado. O presente tem sua própria dinâmica, onde se é preciso buscar harmonia, algo que só pode ser realizado se voltando ao que o momento exige e não ruminando coisas que existiram, tampouco considerando o que se imagina do futuro.

Sonhar com o futuro no lugar de agir no presente é se alienar do que existe; é dar um salto ilusório no tempo; é destruir o que só pode ser experimentado no aqui e agora. O passado não existe como fator em si mesmo para fazer as coisas acontecerem e a inexistência do futuro se camufla com uma abstração sem sentido concreto do que se vive. O que se interpreta do passado, o quanto pesou para se chegar nas condições do presente, em si não pode realizar aquilo que diz respeito aos desafios, face ao que causa incômodo, dor, sofrimento, angústia, decepção, entre outras coisas que possam afligir o espírito. Nada acrescenta apelar para o passado para realizar uma transformação no agora, e a mesma inutilidade consiste em pensar no futuro.

Para quem foi influenciado fortemente pela psicanálise em uma fase aguda da juventude (o meu caso), a qualificação do conhecimento do próprio passado terá sempre um penso, um aspecto especial. Fui treinado para conhecer cada vez mais a minha história. A psicanálise me ajudou a alcançar um caminho historiográfico ao autoconhecimento que jamais devo desprezar ao que fui estimulado, diria, de minha formação “primitiva”, infantil. Foi um esforço válido na tentativa de apontar questões que podem ter sido originadas de um passado que documentei; não se trata aqui de “viver o passado”, mas de um esforço diante de um resultado que percebo em mim mesmo que pode pesar relativamente no presente, mas não determiná-lo, pois isso dependerá do que farei do conhecimento do passado no presente e não de meu passado em si, tampouco idealizar o futuro terá alguma relevância sem a ação efetiva para cada instante.

É impossível saber como se chegou às condições do presente sem conhecer a própria trajetória de vida, sem saber do próprio passado, penso, mas já ouvi algumas vezes pessoas em relação à vida pregressa: “certas coisas, prefiro não lembrar”, ou “não comentar” ou “não saber”, o que muitas vezes pode esconder um desprezo com o que se fora composto, em relação à história de si mesmo. O passado como conhecimento, penso, é subsídio para aprendizado, para extrair alguma lição que possa servir à tarefa de harmonização com o que se tem de questões no presente, além de que a interpretação dada ao passado pode ser revista, reformada, ressignificada. O que é chamado de “trauma”, e se liga ao não querer recordar, ou até mesmo nem mesmo conhecer, pode ser superado a partir dessa experiência que vem pela maturidade.

Entendo que Buda aponta o problema de estar preso ao passado acerca de que esse tipo de conduta se torna um problema espiritual quando se verte em forma de lamentação e, interpreto, de outras maneiras de se viver o passado, e aqui penso no saudosismo, quando se tem um deslumbramento com o que se foi, negligenciando a si mesmo sem se dedicar às exigências do presente.

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