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“O amor é uma troca de almas livres, e é assim que desejo experenciá-lo.”

Obra: O universo tem uma queda pelos corajosos. Me ame, mas me deixe livre. BesteSeller, 2023, Rio de Janeiro. De Wandy Luz.

Imediatamente antes desta definição, a autora afirma: Saiba que sou minha e isso jamais mudará” e encerra (p. 105) assim a reflexão:

“Que possamos caminhar lado a lado respeitando e valorizando a singularidade um do outro, celebrando a grandiosidade do sentimento que nos une”.

A delicada relação entre individualidade e coletividade é o que a autora me fez suscitar nesta experiência de leitura. A harmonia entre singularidade e conjunto exige, acima de tudo, uma ética inefável a envolver diversos aspectos subjacentes da vida; não penso aqui tão-somente em um casal, em uma relação de amor, e sim em uma amplitude que diz respeito a relações familiares, religiosas, sociais, políticas, econômicas…

Quando penso nesta relação em termos familiares, imagino momentos de conflito quando um membro de uma determinada família se vê sob um dilema de tomar uma decisão que prioriza sua individualidade e contraria os interesses do grupo o qual faz parte e foi criado. É comum que o coletivo tente impor o que lhe convém, normalmente sob o apelo de que se deve pensar no conjunto e não apenas em si. Tive um colega de faculdade judeu que se recusou a ir morar com a família em um assentamento na Palestina, o que desapontou o pai, de linha ortodoxa. O rapaz decidiu ficar no Brasil e em seguida assumiu sua homossexualidade, rompendo de vez com o chefe da família.

Trabalhei em igrejas evangélicas entre 2000 e 2007, e fui seminarista entre 2003 e 2007. Nos bastidores de uma denominação conservadora pude ver outra dimensão dessa difícil relação entre o indivíduo e o coletivo. Um pastor próximo dos 50 anos de idade tinha ficado viúvo havia 2 anos e se apaixonou por uma jovem de 26 anos que era de outra confissão religiosa evangélica, considerada “liberal” pelos membros que pastoreava. Quando o pastor comunicou o relacionamento à direção da igreja, passou a ser duramente questionado. O assunto alcançou toda a membresia onde predominou a desaprovação por conta da grande diferença de idade e pela jovem em si que, na visão da maioria, não tinha uma reputação adequada aos valores cultivados na comunidade. O auge da crise se deu quando a direção, composta somente por diáconos, deu um ultimatum ao pastor: a namorada ou a presidência da igreja. O pastor alegou que o seu amor pela comunidade não significava abdicar de sua vida íntima afetiva, que também merece ser respeitada, e assim renunciou ao cargo e deixou a comunidade.

Quando penso nesta relação em termos de sociedade, vislumbro uma imensidão a incluir problemas políticos que, diga-se de passagem, estão no âmago de uma demarcação de linhas de pensamento na economia e na organização social como o socialismo, e aqui penso no que se desdobrou a partir de Marx, que prioriza o planejamento central do coletivo sobre o indivíduo, e em seguida considero o liberalismo econômico que preconiza o inverso. O liberal em economia enfatiza o papel e a liberdade do indivíduo no seio privado e no bojo coletivo ou na cooperação social, e o socialista acredita em uma ideia de política para a economia e a ordem comunitária que estabelece uma centralização de poder e ações que se apropriam dos recursos produtivos onde a coletividade importa em detrimento da iniciativa isolada, independente, do indivíduo. Não entendo que o indivíduo no socialismo não tenha valor, mas que somente terá espaço para atuar como unidade pensante se for submisso a uma ética estabelecida pelo e para o que se entende sobre o bem estar coletivo.

Em relação a um relacionamento afetivo, seja hetero ou homossexual, a tensão entre individualidade e vida conjunta é igualmente perene, desafiadora. Recentemente fiz um comentário ao registrar uma experiência de leitura da obra Medeia: A Redenção do Feminino Sombrio como Símbolo de Dignidade e Sabedoria [614], de Olga Rinne:

“Para que se tenha um bom relacionamento amoroso é preciso “um equilíbrio de equivalência na relação do par”, dispondo de um “termo médio entre comunhão e autonomia entre ‘nós’ e ‘eu’”, superando por um lado o receio da dependência e da perda da individualidade, e por outro, o medo da solidão e do isolamento; a unidade desta simbiose não deve descartar o respeito à individualidade de cada um dos parceiros […]”

Sobre o “me ame, mas me deixe livre”, pensei no quanto um “eu te amo” pode significar na prática em termos de liberdade entre os indivíduos que formam um casal:

Seria um “eu te amo” porém ‘”esqueça sua privacidade e se submeta a mim pelo que sinto por você e ao que sente por mim”?

Seria um “eu te amo” mas “agora sua vida se resume ao que desejo sem depender do que pensa a parceira por causa desse ‘amor’ que afirmo ter?”

Talvez esse “eu te amo” seja uma forma subliminar para esconder possessão ou um “tu és minha”, “tu és meu”, ou seja, “você pertence a mim” e “o meu ciúme aceite porque protejo o que é de minha propriedade”, por isso “se submeta totalmente a mim pelo que somos como casal”, pois caso contrário “sofrerá consequências”, em coisas que terminam em crime passional e evidenciam uma luta pelo poder de controle e que assim não aceita a liberdade da individualidade em nenhum aspecto da vida.

Seria uma forma bruta de amar?

Pensei então na ideia platônica da “Progressão do Amor” [615], na ideia de depuração desse sentimento, de maneira que nos níveis menos desenvolvidos há uma ideia de posse, paixão, uma coisa rudimentar que é chamada de “amor”, mas que pode alcançar etapas, pode evoluir, indo da contemplação física ao belo da alma.

Pensei também na icônica cena final de Casablanca (1942): Rick Blaine (Humphrey Bogart) abdica de ficar com o seu grande amor, Ilsa Lund (Ingrid Bergman), e se despede dela na pista do aeroporto sob um nevoeiro. Ele a convence de ir com o marido Victor Laszlo (Paul Henreid), entendo, porque compreendeu que assim ela ficaria melhor preservada em comparação com a ideia de ficar com ele na situação em que se encontravam resistindo ao nazismo. Ilsa resiste, mas no final aceita e Rick segue para assumir as consequências de sua decisão de retornar ao enfrentamento do nazismo, agora envolto a um amor que superou a barreira do estar com a amada a qualquer custo, para contempla-la de forma transcendental.

E encerro pensando no conceito de amor como um sentimento puro, altruísta, o ἀγάπη que não se apodera e nem espera algo em troca pela bondade que tão-somente direciona ao amado, traduzido não raramente como “caridade” no Hino ao Amor de I Coríntios 13:

I Coríntios, 13

1 – Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.

2 – Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, não sou nada.

3 – Ainda que distribuísse todos os meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada valeria!

4 – A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante.

5 – Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.

6 – Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.

7 – Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

8 – A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará.

9 – A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita.

10 – Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.

11 – Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocidiva como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.

12 – Hoje vemos como por um espelho, confusamente mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido.

13 – Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade – as três. Porém, a maior delas é a caridade.

614. 23/07/2026 12h26

615. 31/07/2026 20h35

2 Replies to “06/08/2026 20h30 O universo tem uma queda pelos corajosos. Me ame, mas me deixe livre”

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