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— Talvez lhes pareça estranho o que vou lhes dizer, aos senhores, socialistas, progressistas, humanitários; mas nunca me preocupo com o próximo, nunca tento proteger a sociedade que não me protege, e digo mais, que geralmente só se preocupa comigo para me prejudicar; negando-lhes minha estima e mantendo-me neutro a seu respeito, são a sociedade e o meu próximo que continuam a me dever.
Obra: O Conde de Monte Cristo. Parte III. 2. O café-da-manhã. Zahar, 2008, Rio de janeiro. Tradução de André Telles e Rodrigo Lacerda. De Dumas Davy de la Pailleterie (France/Villers-Cotterêts, 1802-1870)
A primeira referência a esta obra-prima foi em 1999, por uma professora de sociologia que citou o trecho (p. 565) desta Leitura para ilustrar o que entendera por “individualismo doentio” do personagem Edmond Dantès em sua analogia sobre o “culto ao indivíduo” no liberalismo econômico. A menção negativa que parecia indignada com o perfil psicológico de Dantès, claramente incompatível com determinadas crenças políticas da docente, serviu para despertar meu interesse pelo romance.
Lá pelos idos de 2010 revisitei esta obra após assistir ao filme V de Vingança (2006) [607], para fazer comparações com o romance. Na sétima arte entendi que o enredo apresenta uma licença poética interessante, pois, além de utilizar elementos da história de Guy Fawkes (1570-1606), explora bem a narrativa de Dumas sobre o drama de Dantès, cuja trajetória é do inocente idealista que fora injustiçado e com a experiência na prisão, passa por uma espécie de metanoia, de modo que se transforma no Conde de Monte Cristo e assim planeja meticulosa e implacavelmente sua vingança contra os que o oprimiram em uma sociedade permeada de corrupção e tramoias no contexto de um aparato estatal francês em decadência no século XIX, envolto a disputas entre bonapartistas e monarquistas.
A politicamente incorreta resposta do Monte Cristo a seus interlocutores na mesa do café-da-manha, exaltada por Château-Renaud como pregação leal e brutal do egoísmo, enquanto ponderada por Morrel e entendida por Morcerf como algo de “filantropo” (p. 566), ilustra, imagino, um debate entre os problemas do coletivismo e e do individualismo, algo que deve ter corrido pela França em longa crise política sob frustrações da Revolução, seguida pelo vazio das ideias positivistas, além da derrocada napoleônica. Nesse contexto, Dumas elabora um personagem devastado que decide ir ao enfrentamento da vida para um contundente caminho de ajuste de contas com a parte corporativa que o afligiu castrando sua liberdade, enquanto o sofrimento se relaciona com um despertar de uma ingenuidade que faz questão de sepultar.
Outro ponto interessante nesta obra se relaciona com o registro da revisitação que fiz em 2023, por conta de outra releitura [608], no caso, de Aos Ombros de Gigantes, de Umberto Eco:
Eis a crítica do professor Umberto Eco em termos sucintos: um caso de um apaixonante clássico enquanto construção literária tecnicamente questionável. O Conde do Monte Cristo tem muitas repetições de adjetivos, redundante, mecânico e desajeitado, cheio de buracos, com divagação silenciosa, aponta o medievalista bibliófilo italiano (pp 305-306) que traduziu a obra que lembra: Dumas sabia escrever, mas era pago por linha escrita e “precisava esticar” (p. 304).
Quando li a crítica do professor Umberto Eco, tive aquela velha sensação de que, ao considerar o parecer de um erudito, enxerguei algo não absurdo em uma obra do calibre de um capolavoro, contudo, isso pouco importa diante da excelência do romance em me manter empolgado capítulo após capítulo.
607. 20/07/2025 14h33
608. 07/02/2023 22h54
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