
Stephen Hanselman
“Os inexperientes e amedrontados falam para se tranquilizar.”
Obra: Diário Estoico. 5 de agosto. Silêncio é força. Intrínseca, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. De Ryan Holiday e Stephen Hanselman.
Sêneca em Tiestes (309):
“O silêncio é uma lição aprendida de muitos sofrimentos na vida.”
Pensei neste registro recente que fiz de minha primeira experiência de leitura de O Banquete [613] em 1994:
“O professor ficou em silêncio observando a discussão e, após uma calmaria, retomou a lição para a parte mais empolgante […]“
Nem mesmo quando foi mencionado de maneira ácida pelo “irmão” (assim era chamado na turma pela sua saliente religiosidade protestante). E assim permaneceu enquanto se tornava cada vez mais tensa a discussão entre os que defendiam a opinião do “irmão” e os que ficaram indignados. Ele continuou mudo em seu birô, ouvindo atentamente as partes, na medida do possível, mediante discordâncias de um lado, proferidas sem esperar a conclusão do outro. Quando ficamos próximos e virei seu aprendiz, ele me explicou que a coisa que mais admirou no tempo que viveu em uma república estudantil em Paris, foi a educação francesa nos debates cujo saber notório consistia em esperar a conclusão do raciocínio oponente para sinalizar a intenção de fazer uso da palavra.
Aquele senhor se revelou tão diferente dos outros professores… Ele me deixou perplexo pelo contraste do andar lento e da fala mansa com o provocante conteúdo de suas lições. No caso de O Banquete, o tema da sexualidade ganhou espaço quando um aluno citou trechos sobre “pederastia” na obra e o questionou com certo ar de repugnância. Foi então que vi uma demonstração do que se revelaria como um estilo marcante para abordar com serenidade algo considerado muito polêmico. Era tão natural, tranquila, sua forma de explicar, e ao mesmo tempo ousada, diante do que eu tinha escutado até então em outros círculos normalmente regidos com certo ar de sensacionalismo e espírito ideológico. Em seguida fiquei ainda mais impressionado com o comportamento devotado ao silêncio e à observação, que depois eu entenderia como “estoico”. Isso ficou explícito diante da agressividade do “irmão” e do grupo de apoiadores.
A calmaria começou a tomar conta da sala quando começaram a olhar para ele naquele estado “estoico”; parecia um monge. Esperavam alguma resposta dele, pensei, em relação ao que o “irmão” lhe tinha falado de forma tão áspera, mas ele continuou em silêncio olhando firmemente para cada aluno que falava. Houve um momento em que perderam a vontade de falar e o silêncio prevaleceu, voltando-se todos ao comportamento do professor. Ele não precisou dizer uma só palavra para reconquistar a atenção da turma e, mediante aquele olhar coletivo de muita curiosidade, então retomou a lição do ponto que tinha parado, com um tom de voz ainda mais suave.
Fiquei fascinado por aquele jeito de ser, mas a minha juventude, inevitavelmente unida com a imaturidade que lhe é inerente, impediu-me de uma melhor assimilação. Um tempo depois, em nossos encontros no Parque da Janeira, ele caminhava, e eu corria; ele se mostrou espirituoso com suas metáforas, brincando a argumentar que minha preferência pela corrida representava a correria típica da juventude e ele, caminhando suavemente, outra coisa, que eu talvez poderia descobrir mais tarde, quando então me explicou que eu não deveria cobrar de mim mesmo algo que a natureza jovial impede, mas que poderia aprender alguma coisa e guardar bem o que não conseguisse praticar; quem sabe ficaria para o tempo em que começaria a me ocupar em como viver uma boa velhice. Só comecei a entender isso nos últimos meses. Fato é que a filosofia do silêncio do meu mentor teve que esperar aquela minha fase bruta e elétrica, para iniciar um tempo de melhor compreensão de minha parte, enquanto sob o ímpeto por muito falar prevalecendo em meio a uma arrogância tão peculiar.
Em uma situação no ano passado, estava no Zoom com um desenvolvedor da área de TI que decidiu aumentar o tom de voz por discordar de uma decisão que eu tinha lhe revelado, e então, por graça divina o meu mentor me veio em mente, e na medida em que o sujeito aumentava e acelerava o tom, para me constranger a mudar de ideia sobre algo que entendi precisava ser repensado, decidi usar um tom menor e mais lento. Ele parou, primeiro ficou irritado com a calma, e depois curioso, e na estranheza de minha conduta, acalmou-se, o que me serviu de lição para lidar melhor nesse tempo de muitos tão acelerados, cheios de certezas e indispostos ao contraditório.
E no final daquela inesquecível aula, decidi puxar um assunto com o professor ainda no corredor, quando o “irmão” se aproximou e lhe pediu desculpa. O professor estendeu a mão, deu um sorriso, falou “eu compreendo a sua inquietação” e o puxou para um abraço. Desta vez eu e o colega, outrora rixoso, ficamos boquiabertos com aquele estilo pedagógico, cuja temperança usava o silêncio combinado com um olhar atencioso ao que estava sendo dito e feito ao redor, possibilitando força e autossuficiência.
Ele se tornaria o meu mentor ainda naquele ano e foi assim até 2000, quando partiu para o que chamava de “outra existência”. Foram seis anos me ajudando a tomar decisões nos momentos mais difíceis de minha juventude. Não há um dia que não pense nele.
613. 31/07/2026 20h35
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