Imagem: Livraria do Psicólogo e Educador

“Se você teve uma experiência traumática grave, pode desenvolver uma crença sobre o futuro – ‘nada jamais dará certo'”
Obra: Bons Pensamentos – Bons Sentimentos: Guia de Terapia Cognitivo-Comportamental para Adolescentes e Jovens Adultos. 12. Crenças nucleares. Artmed, 2021, Porto Alegre. Tradução de Daniel Bueno. De Paul Stallard.
Obra bastante difundida entre psicólogos da TCC direcionados para adolescentes e jovens.
Crença nuclear talvez seja o problema mais difícil de ser superado em uma psicoterapia. Como resume o professor e pesquisador Paul Stallard, é algo muito forte e rígido que se traduz em declaração abrangente, breve e, diria, contundente, sobretudo enviesada sobre si mesmo, onde se descarta tudo que possa questioná-la, apegando-se a uma busca pelo que a confirme (pp. 129-130).
“Sou um desastre, não tenho como dar certo”, lembrei-me do que dissera um certo jovem de 21 anos na primeira conversa com o psicólogo que, para ele, não passava de perda de tempo, quando pensei no trecho (p. 129) desta Leitura.
Adler explica melhor do que Freud aquele caso porque se tratava de um rapaz cheio de energia que procurava por algo que não sabia ao certo definir, uma meta que intencionava inconscientemente; era nobre, porém utópica como reflexo de sua imaturidade: fascinado pela alma feminina cuja vida afetiva para ele só tinha sentido de forma intensa, profunda e de perspectiva longeva. Não havia espaço para a despretensão, para o lúdico na simples experiência sem criar expectativas de longo prazo. E quando passou por frustrações nessa busca do impossível, a combinação de suas crenças nucleares se traduziu em transtornos que começavam a se alastrar para outros setores da vida.
Sua idealização ignorava o desgaste natural nos relacionamentos, algo que exige reinvenção da relação, por isso sua crença não passava de utopia. Eis a primeira crença nuclear em um misto de interpretação infantil do que entendia sobre o “amor fati” de Nietzsche, como premissa tríplice para dar sentido ao que concebia como base que ocasionava em raridade de experiências que denotavam o quanto era fechado demais. A segunda crença – categorizada no “sou um desastre, não tenho como dar certo” – foi um desdobramento de suas distorções cognitivas quando sofreu sucessivos choques de realidade sobre a ilusão do que idealizava.
Felizmente aquele rapaz logo conheceu uma jovem com um nível de maturidade superior, capaz de lhe dar um afeto real. Enquanto isso, insistia em jogar pedras no que chamava de “idolatria do abstrato”, assim se referia em 1996 à psicanálise e à psicoterapia quando convidado para tratamento, concepção alterada um ano depois quando aceitou os diagnósticos de síndrome do pânico, em meio aos primeiros sinais de anedonia, não mais por fatores afetivos que estavam bem encaminhados, mas por sequelas emocionais na forma da síndrome, combinada com desajustes em sua vida familiar em um conjunto perigoso que começava a comprometer seus estudos e a carreira profissional.
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