
“Eles estão apenas usando o trabalho como desculpa para evitar suas outras responsabilidades.”
Obra: A coragem de não agradar. A compulsão pelo trabalho é uma mentira da vida. Sextante, 2018, Rio de Janeiro. Tradução de Ivo Korytowsky. De Ichiro Kishimi e Fumitake Koga.
Torno ao tema do “workaholic”, desta vez na conversa do filósofo com o jovem sobre “mentiras da vida”.
O que é “trabalho”? O filósofo adleriano responde ao jovem com alusão ao conceito de “harmonia da vida”. Cumprir uma tarefa doméstica é “trabalho”, educar os filhos é “trabalho”, estudar é “trabalho”, dar atenção aos mais velhos é um trabalho, e não apenas ficar devotado ao que se faz em um emprego ou em um negócio, uma das mentiras da vida quando assim se crê (p.230). No meu caso, hoje, o meu “trabalho” mais intenso foi ficar mais tempo com a minha esposa e a minha filha mais nova e quebrar a rotina.
Foi um dia proveitoso também porque realizei um trabalho muito especial: o de nada fazer, pelo menos em um momento que desfrutei melhor do silêncio e esvaziei minha mente: gracioso é o trabalho de parar de pensar nos problemas da vida e fazer meditação em maior tempo que de costume nos dias úteis “normais”.
Desligar-me completamente do sistema de chamados do suporte e deixar tudo com dona Gioconda? Mais um trabalho gratificante.
Da última vez que fiz isso um cliente me falou que não teria como fazer o mesmo porque “tem muito trabalho”. Para o filósofo adleriano de A coragem de não agradar, diria que lhe falta trabalho que harmonize sua vida (p. 231).
Quando hoje conversei com o médico sobre a minha bateria de exames, além de ficar contente com os resultados, realizei mais um trabalho.
Alguns trabalhos fluem bem melhor sem telefone celular e sem bugigangas de TI que nos deixam conectados e amarrados com um mundo insano do imediatismo de cada dia. Surpresas acontecem quando se consegue parar e experimentar outra perspectiva além do que a rotina costuma possibilitar.
Quando estava na recepção do consultório, parei minha terapia de leitura para observar aquele curioso fenômeno de cabeças baixas voltadas para as telinhas dos smartphones. Alguns se divertindo e fazendo barulho com vídeos do Tik Tok, outros naquele entra e sai para uma chamada telefônica estilo “atenda agora ou terei um enfarto!”, quando notei minúcias desse mundo de correria que faço questão de não participar.
Hoje quando entrei em uma livraria, escolhi uma obra para comprar e sentei para apreciá-la um pouco, também trabalhei.
– Como você consegue passar um dia inteiro sem olhar as “coisas do trabalho” – perguntou um colega de TI – em Adler, as “tarefas da vida” são trabalhos de harmonia existencial. Um sujeito que não tem tempo para cuidar da vida íntima, da saúde, da espiritualidade, do intelecto e dos afetos, na verdade usa o dito trabalho profissional para fugir dessas responsabilidades – respondi.
Lembrei-me de uma atendente de uma clínica que olhou para mim como se eu fosse um ET após informá-la que eu não poderia pegar o token do plano de saúde porque simplesmente não tenho celular. Teria que ser “à moda antiga”. Ela disse, “como assim, senhor?”.
E de trabalho em trabalho, sigo e aqui estou, ao escrever este texto finalizando um dos últimos deste glorioso dia.
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