Imagem: The International Literature Showcase

Alex Bellos

“With the support of the Brazilian Sports Confederation, football’s national body, the paper launched an open competition to devise a strip using all the colours of the Brazilian flag: blue, white, green and yellow. The national team would use the winner’s design in the 1954 World Cup in Switzerland.”

Obra: Futebol: The Brazilian Way of Life. Chapter Three. The fateful final. Bloomsbury Publishing Plc, 2009, London. De Alexander Bellos (UK/England/Oxford, 1969)

Eis uma história do nascimento da camisa amarela mais famosa do mundo contada no terceiro capítulo desta obra, por um britânico, o que me parece bem apropriado, dadas as raízes do futebol moderno.

Talvez, imagino, muitos brasileiros não tenham consciência do enorme significado que o uniforme da Seleção Brasileira de Futebol no exterior. Entendo que pode ser o elemento cultural que melhor identifica o Brasil pelo mundo.

O nascimento do uniforme canarinho remonta à tragédia do Maracanazo, na final da Copa do Mundo de 1950, onde se marcou o início de um maior desprezo pela camisa branca com golas azuis. O Correio da Manhã, em editorial, definiu o uniforme como desprovido de “simbolismo psicológico e moral”. Foi então que a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) decidiu promover um concurso para criar um uniforme que utilizasse todas as cores da bandeira nacional. Na Copa de 1954 (Suíça) a Seleção Brasileira usaria o novo modelo.

Concorrendo com mais de 300 participantes (p. 69), Aldyr Garcia Schlee, que tinha apenas 19 anos, foi o vencedor. Ele trabalhava como ilustrador em um jornal local da cidade de Pelotas, que fica a cerca de 160 quilômetros da fronteira com o Uruguai. Pensei, qual teria sido a inspiração do autor do novo uniforme com a camisa amarela e o calção azul? Começo pelo que o jovem falou sobre o que entendeu como um enorme desafio combinar quatro cores em um padrão esportivo: “Fiquei realmente escandalizado com a exigência de que as quatro cores da bandeira nacional fossem utilizadas [… ] até três cores, tudo bem. Mas quatro cores é muito difícil. Nenhum time usa quatro cores. E as quatro cores da bandeira não combinam bem entre si. Como combinar amarelo e branco em uma camisa? O resultado são as cores da seleção da Santa Sé!” (p. 66).

A ironia em torno do uniforme que se tornaria o mais famoso de todos os tempos, é que Aldyr Garcia Schlee era um brasileiro que tinha uma vida dividida com o Uruguai, dadas as raízes culturais entranhadas em função de ter sido criado perto da divisa com o país algoz do Maracanazo. O brasileiro confessa que a vitória uruguaia em 1950 foi um duro golpe, “mas também reforçou sua admiração pelo pequeno país situado do outro lado do rio” (p. 73). Não me surpreendeu que ele também escrevia em espanhol e tivesse desenvolvido afeto pelo país vizinho que já fora província brasileira antes da luta pela independência. Depois Aldyr Schlee se enveredou por outras profissões: jornalista, professor universitário e romancista. Conquistou o Prêmio Esso de jornalismo por uma investigação sobre os recursos petrolíferos do Brasil, e seu primeiro livro, Contos de Sempre, venceu a primeira Bienal de Literatura Brasileira em 1982. Depois publicou Uma Terra Só, onde ganhou a segunda Bienal em 1984 (p. 71).

Passados 47 anos do feito, Aldyr Schlee resumiu para o autor deste livro como se deu o processo que culminou na sagrada canarinha de calção azul: “Branco e azul combinam — azul com detalhes em branco ou vice-versa. Com isso, a questão do calção foi resolvida. O que sobrou? Amarelo e verde — aliás, são as cores mais usadas para representar a nação. Quando amarramos fitas no cabelo, são amarelas e verdes. Então pensei: vou trabalhar com amarelo e verde. Desenhei mais de cem modelos. Fiz duas faixas cruzadas em forma de X. Fiz um V como o do clube argentino Vélez Sarsfield e cheguei à conclusão de que a camisa tinha de ser apenas amarela. Com o verde, ficava incoerente. O amarelo combina com o azul, e as meias podiam ser brancas.”.

Uma curiosidade é que o uniforme que conquistou a preferência da Comissão Julgadora – camisa amarela com gola e punhos verdes, calção azul com uma faixa vertical branca e meias brancas com detalhes em verde e amarelo – não seguia exatamente as regras do concurso, pois sua paleta de cores não incluía o tom exato do azul-celeste da bandeira nacional. O gaúcho utilizou o que tinha à disposição — um tom de azul-cobalto —, uma cor que acabou sendo fielmente reproduzida e permanece no uniforme desde então. Alberto Lima, membro da Comissão Julgadora e da Sociedade Brasileira de Belas Artes argumentou que a distribuição de cores de Aldyr Schlee era a mais “harmoniosa”. Para o autor do modelo, o amarelo na camisa confere ao Brasil “um toque de exotismo, como algo que se esperaria da África”. O autor deste livro, que deixa transparecer no livro sua grande admiração pelo futebol brasileiro, “para a Europa, o Brasil é exótico o suficiente” e que “o amarelo é uma cor primária tão forte que se fundiu perfeitamente ao estilo brasileiro, exuberante e vibrante. Mais do que isso, o amarelo-ouro confere um calor e um ar de luxo que complementam o talento prodigioso dos brasileiros” (p. 70).

O segundo colocado foi Nei Damasceno, o mesmo autor do cartaz da Copa do Mundo de 1950, que apresentou um modelo de camisa verde, calção branco e meias amarelas, o que me pareceu mais com uniforme de animador de circo de que qualquer outra coisa.

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