Imagem: Estrategistas

Viktor Frankl

“[…] Um mundo em que a pergunta pelo sentido último do sofrimento humano encontraria uma resposta?”.

Obra: Em busca de sentido. I. Em busca de sentido. II. Conceitos fundamentais da logoterapia. Um logodrama. Vozes, 2018, Petrópolis. Tradução de Walter O. Schulupp e Carlos C. Aveline. De Viktor Emil Frankl (Áustria/Viena, 1905-1997).

Em anotação de 09/08/2023 [603]:

Frankl foi a primeira grande referência que tive em leituras de psicologia.

O meu primeiro contato com as ideias de Vikor Frankl se deu em 1997, um pouco antes do grande impacto que tive ao conhecer a psicologia de Alferd Adler [604]. Lembro-me que decidi ler primeiro Frankl, entre as recomendações do meu psi, simplesmente por causa do título em destaque na edição dos anos 1980 que apreciei à época na biblioteca: Um Psicólogo no Campo de Concentração.

Frankl trabalha o tópico inicialmente em Problemas metaclínicos, ao considerar que “cada vez mais psiquiatras são procurados por pacientes que os confrontam com problemas humanos e não tanto com sintomas neuróticos” (p. 140). O meu caso envolvia os dois problemas em escala igualmente intensa. Por um lado tinha que tratar os sintomas do pânico e identificar suas causas. Por outro, apresentava ao psi questões sobre o “sentido da vida” que, de fato, poderiam ser abordadas, em tempos mais antigos, a um rabino, a padre ou a um pastor, como Frankl menciona. Em suma, consegui expressar ao psi, em meio a uma condição naturalmente imatura, que naqueles 22 anos de idade eu queria entender por que a vida estava me castigando tanto e qual o sentido que poderia dela extrair.

Parte da terapia se deu então por recomendações de leitura. O psi sabiamente tomou proveito de meu perfil de amante literário. Sendo assim, com minha resistência às ideias de Freud, foi em Adler que identifiquei uma resposta mais perturbadora e interessante na ocasião, pelo despertar que tive a partir da leitura dos capítulos que me foram recomendados de A Ciência da Natureza Humana, onde começava a considerar meus exageros nas distorções cognitivas. Um pouco depois pude enxergar, sempre com o suporte do psi, meus automatismos, que se ligavam a certa ingenuidade quanto à pergunta que eu fazia sobre a “vida”, enquanto ao conhecer o pensamento de Frankl, no contexto do trecho (p. 142) desta Leitura, encontrei outra perspectiva: para a transcendência na reflexão que realizava com o meu psi acerca do sofrimento que passava.

Em termos terapêuticos, caminhamos pela ideia do desenvolvimento individual de Adler, enquanto trabalhávamos a logoterapia de Frankl no setor dos “problemas existenciais”. Pelo senso de urgência [605] quanto aos gatilhos do pânico, no final daquele ano aceitei me submeter a uma Programação Neurolinguística (PNL) e os resultados foram excelentes nos eventos testes que enfrentei. Apesar de não gostar do que entendia ser um “determinismo sem sentido” na psicanálise, não a abandonei por entender que me traria subsídios a um autoconhecimento que nenhum outro caminho, na ocasião, poderia me oferecer.

Quanto à perspectiva que tive em Frankl, após a breve abordagem sobre o peso maior de questões existenciais sobre sintomas neuróticos, o pai da logoterapia discorre sobre pacientes que tratou em um grupo, com destaque para o caso da mãe que perdeu um filho enquanto tinha outro paralítico e conseguiu discernir que os sofrimentos que passou fizeram parte do sentido de sua vida (p. 141), para então propor uma questão ao grupo inteiro, na abordagem da capacidade humana de lidar com o sofrimento de forma inteligível, diferentemente de uma inteligência limitada, do que apresentou como exemplo na situação do macaco que é picado diversas vezes na produção do soro contra a poliomielite e não consegue ter essa dimensão humana do sofrer. E o ser humano sendo um caso de inteligência capaz de discernir o próprio sofrimento, seria esse o ponto final na evolução do cosmo ou haveria outra dimensão possível onde a pergunta pelo sentido último do sofrimento seria respondida? (p. 142).

Quando li as perguntas que Frankl apresentou a todo o grupo de pacientes, igualmente fiquei paralisado por alguns minutos, à semelhança do que tinha experimentado na leitura em Adler sobre as limitações especiais da vida, quando entendi que a “vida” nada pode me ensinar em si mesma, por envolver o gênero humano como produto acabado, com seus pontos de vista definidos e que por isso, comecei a compreender, a transformação genuína que eu carecia, mediante um problema psicológico que enfrentava, só poderia ocorrer de forma endógena. Na questão de Frankl, percebi que a evolução cogitada diante do quadro de sofrimento, ligava-se a um conceito de “sentido da vida” pelo entendimento mais abrangente e profundo do significado e até mesmo da necessidade de algumas dores emocionais para que eu pudesse ter um melhor amadurecimento.

O tema do sofrimento como parte do “sentido da vida” se revelou bem familiar, primeiro pela minha formação cristã, depois pelo que tinha escrito em outubro de 1995 em uma BBS, durante uma experiência científica. Alunos e professores universitários que faziam parte do grupo foram desafiados a publicar um artigo sobre algum tema filosófico, utilizando um pseudônimo. Depois seria escolhido o melhor artigo e o autor seria revelado. Em outro grupo, os participantes, também entre alunos e professores, seriam submetidos à mesma avaliação, no entanto revelariam de imediato a autoria na publicação. A experiência pretendia identificar o quanto o conhecimento prévio da autoria influencia na avaliação da relevância de um texto, ou seja, valorizamos pelo conteúdo em si ou (mais) pelo autor? No grupo onde os autores se revelaram na publicação, foi considerado como o melhor artigo o que fora postado por um professor de filosofia bem conhecido no meio, enquanto no grupo dos autores pseudônimos, os melhores artigos foram de alunos, e o mais considerado como relevante foi sobre o Amor fati cristão, escrito por um modesto aluno de economia do quarto período.

Encerro com a menção ao Amor fati cristão porque o sentido da vida atrelado ao sofrimento, na perspectiva de Frankl, deu àquele jovem que publicou na BBS, uma nova visão acerca do que tentava desenvolver sobre esse amor ao destino que fica distante da resignação, enquanto começava a se dar conta que sua postagem se tratou de uma “profecia auto realizável” que se conectou com o que tratava junto ao psi.

603: 09/08/2023 22h26

604. 06/07/2026 21h53

605. Naquele ano eu tinha muito medo de ficar incapacitado para o trabalho, pois me sustentava à época, com uma filha de 5 anos. Isso se tornou ainda mais emergencial quando passei a morar sozinho em uma pousada, sem contato com familiares, com exceção de encontros sigilosos que tinha com o meu pai e minha avó materna (entre 1998 e 1999). O receio de sofrer um colapso aumentou quando decidi me casar, o que ocorreria no final de 1998.

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