Imagem: Fronteiras do Pensamento

Elisabeth Roudinesco

“[…] Freud afirmava que as principais fontes da infelicidade do sujeito moderno residiam numa ausência de ideal […]”

Obra: Sigmund Freud na sua época e em nosso tempo. Quarta Parte. Freud, últimos tempos. 2. Face a Hitler. Zahar, 2016, Rio de Janeiro. Tradução de André Telles. De Elisabeth Roudinesco (France/Paris, 1944).

Sobre o trecho (p. 394) desta Leitura, a ausência de ideal em Freud se divide em três fatores: o corpo biológico, o mundo exterior e as relações com os outros. Quando jovem fui desafiado pelo psi a tratar desses três âmbitos sob a ideia de harmonização, pois priorizar um determinado fator em detrimento de um outro ou dos dois restantes, estaria assim potencializando meu sofrimento.

Como sinto o mundo (fator 1)?

Como estou enxergando as oportunidades que surgem no mundo (fator 2)?

Quão consciente estou de minha dependência na forma relacionamentos nesse mundo e da importância de uma harmônica convivência com a família e a sociedade (fator 3)?

Foi quando as sessões de psicanálise passaram a fazer mais sentido por apontarem questões que me ajudaram a avançar para as técnicas psicoterapêuticas. As perguntas me ocuparam em detrimento de ser apenas um jovem chato, irritado com o determinismo sexual da psicanálise. No fator 1 comecei a tomar consciência de minhas distorções que retroalimentavam automatismos de pensamento que provocavam os surtos de pânico (a psicanálise não resolve isso, mas ajudou entender o problema). O fator 2 me inspirou a identificar a possibilidade de ter novos sentidos para a vida (o que também seria tratado adiante em psicoterapia). O fator 3 abriu meus olhos para a meta da reaproximação com a família em um tempo em que precisei me isolar para tratamento (aqui, Adler foi mais importante).

A autora lembra uma característica do pensamento de Freud acerca de como o ser humano costuma reagir para escapar do sofrimento: produz ilusões a partir de três escolhas inconscientes, sendo a primeira “a neurose (angústia, conflito)”, a segunda se dá pela “intoxicação (as drogas, a bebida)” e a terceira pela psicose (a loucura, o narcisismo, a desmedida)” (p. 394). Eu estava no primeiro caso, embora empolgado com referências bibliográficas de meu psi que me abriram um horizonte de aprendizagem que desmontou meus preconceitos com a psicologia.

Freud (1856-1939) viveu certa contemporaneidade em relação a Nietzsche (1844-1900), o meu filósofo da juventude (e reconheço, até hoje). O marrento que desafia meus pensamentos, martelou uma ordem moral que se tornou caricatura de si mesma, penso, através do que entendo por um “vazio” catalisado via fé religiosa, algo que parece ter ficado mais evidente na segunda metade do século XIX. Já o mais famoso psiquiatra de Viena se situou em uma linha um tanto aproximada em relação a de Nietzsche ao considerar que “a religião não trazia mais nenhum remédio à frustração” (p. 394). O que restava então a esse ser humano frustrado, sofrido, como recurso ao se sentir em um vazio de conteúdo que entendia em relação ao que lhe oferecia a fé religiosa? Freud se ocupou em criar a psicanálise para tentar preencher essa lacuna, e Nietzsche radicalizou anunciando a “morte de Deus” e apresentando o Übermensch, o destemido criador de valores.

Penso em Nietzsche em relação a Freud porque ambos tiveram em comum a criticidade ácida ao que o religioso dispunha e, neste aspecto, foram homens de seu tempo, no sentido de que cada um, conforme o estilo peculiar, foram intérpretes de um mal-estar com um vazio, diria, um tanto relacionado a ilusões com o progresso material da modernidade, se bem que Freud foi um defensor incondicional das realizações técnicas e científicas (p. 395); refiro-me às frustrações desse ser humano em um novo estágio tecnológico sobre suas concepções tradicionais que não mais respondiam aos problemas intangíveis que lidava com essa modernidade. Acredito que esse vazio perdura até o momento e parece ter se agravado com o humano cada vez menos pensador e e mais dependente de tecnologias que são caricaturas de sua potencial inteligência, tornando-se assim bem mais manipulável e passivo a sofrimentos que não consegue minimamente definir.

Sobre essa temática, Freud escreveu O mal-estar na civilização, livro citado neste capítulo que trata sobre a situação do pai da psicanálise diante do regime de Hitler. Penso o quanto esse ambiente aterrorizante possa ter pesado na construção do pensamento expresso no livro que a autora define como “o mais luminoso, lírico e político” (p. 393), sendo continuidade de O futuro de uma ilusão, obra onde expõe sua visão ateísta sobre o fenômeno religioso onde não poupa os mitos em torno do berço religioso que rejeitou: o judaísmo. O futuro de uma ilusão [603] foi marcante em meu tempo de seminarista (2003-2007) quando me interessei pela área de psicologia da religião e comecei a tomar consciência de certas práticas de indução e exploração das emoções que observava no meio em que atuava, quando passei a entendê-las como repugnantes.

603. 28/01/2025 20h13

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