Imagem: Al Jazeera

Francesca Albanese

“[…] depois foram expulsos à mira de fuzil, à pé ou em caminhonetes organizadas pelas milícias israelenses.[…]”

Obra: Quando o Mundo Dorme. Histórias, palavras e feridas da Palestina. Malak. Onde é a casa de uma pessoa refugiada? Tabla, 2026, Rio de Janeiro. Tradução de Cláudia Tavares Alves. De Francesca Paola Albanese (Italia/Avelino/Ariano Irpino, 1977).

A jurista italiana abre o capítulo mencionando um dos crimes mais ignorados no Ocidente: a “Nakba”, cometido por Israel, a catástrofe que acometeu os palestinos em 1948 na instituição do Estado sionista, com o êxodo forçado que se traduziu em deslocamentos de massa, execuções sumárias, massacres, estupros e outras atrocidades cometidas no favorecimento ao lado israelense (p. 185).

Estudar a Nakba é mergulhar em uma forma profunda de maldade que caracteriza a nossa espécie, algo que tem o agravante de usar o discurso religioso com apelo bíblico pelo Estado de Israel, pelo menos assim pode ser observado não somente entre judeus sionistas mas, sobretudo, entre grupos que se dizem “cristãos”, normalmente composto por fundamentalistas bíblicos, muitos ingênuos, apenas manipulados, desavisados, outros nem tanto.

Albanese também lembra um problema que costuma prejudicar o debate em torno dos palestinos: a violência do Hamas, que serve para encobrir o drama de uma população acuada entre as fronteiras impostas por Israel e o oportunismo político de grupos extremistas. Os palestinos de Gaza vive em um fogo cruzado, como vítimas da reação do exército israelense (p. 186), e, em certo sentido, reféns econômicos do grupo terrorista, assim entendo a vantagem tática do Hamas, à mon avis, neste aspecto, algo que contribui para o fortalecimento de narrativas que favorecem o discurso de ação violenta no meio sionista.

Para os palestinos que perderam suas terras, os israelenses são “colonos”, aponta a professora Albanese que lembra outro problema pouco conhecido nesse processo dramático: o banimento de massa dos palestinos começou antes de 1948. Foi durante o mandato britânico (1920-1948), quando a complacência dos ingleses serviu ao lobby sionista que se aproveitava das perseguições historicamente sofridas por judeus na Europa (pp. 184-185). Faço aqui um comentário à parte do que é abordado neste ponto da obra: nada é mais enganoso na Questão Palestina do que o apelo aos antepassados feito por sionistas e simpatizantes “cristãos” (sempre coloco aspas porque é inconciliável ser cristão e ser conivente com os crimes de Israel), como se os nativos da Palestina, que estavam ali por séculos, fossem os invasores, quando na verdade os próprios registros bíblicos, diga-se de passagem, muitos baseados em mitos, apontam que foi o povo que hoje se identifica como “Israel” (algo vago), que invadiu a dita “terra prometida” em nome de um “deus” que o inspirou a cometer o que hoje se pode chamar de “crimes de guerra” e até mesmo “genocídio”. Toda essa narrativa com fetiche por Israel remonta ao lendário Moisés e ao êxodo do Egito, e cai por terra quando se estuda a historicidade dos textos bíblicos e o DNA dos judeus situados em Israel, algo que constrange os que apelam à linhagem.

Aborda-se neste capítulo a figura da artista Malak Mattar (p. 187). O talento de Malak inspirou o título deste livro, explica a autora, cuja pintura ilustra a capa (p. 198). As obras da pintora palestina despertaram a autora deste livro para uma história de vida que retrata o profundo sofrimento da separação dos pais, de uma menina que foi parar em Londres, que vivera a infância em Gaza, com o governo inglês a dificultar os vistos para os pais e demais familiares se encontrarem com ela. Seus familiares herdaram a condição de refugiados na Faixa de Gaza após a Nakba (p. 192), mas conseguiram fugir para o Egito (p. 191).

A história de Malak reflete o drama de quem perdera a terra dos pais, assiste à destruição de lugares em que cresceu com os bombardeios de Israel, e assim vive sob negações sucessivas de pedidos de visto para se estabelecer, no entanto, Malak se torna um notável caso de quem não desiste de bem viver, de estudar e se capacitar nesse mundo tão hostil (p. 194), o que demonstra o espírito dos palestinos.

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