Imagem: About Dr. Hahn

“Como Madre Teresa diz, nossos sofrimentos são carícias suaves de Deus, chamando-nos de volta para ele […]”
Obra: Todos os caminhos levam a Roma. Nossa jornada até o catolicismo. Capítulo 8. Uma reunião Roma-ântica. Cleófas, 2022, Campinas. Tradução de Rafael Nunes Godinho. De Scott Hahn (1957) e Kimberly Hahn (1957).
Em 1989 o casal Hahn enfrentou dois abortos espontâneos (p. 184). Na primeira perda, Kimberly meditava imersa em dor e tristeza e pensou em Hebreus 12, na “nuvem de testemunhas” e no tempo verbal do verso. Scott teve que ficar com os três filhos em casa (p. 185), e Kimberly então se deu conta de que não estava sozinha no quarto do hospital (p. 186); ela sentiu uma presença, estava cercada, conta, em relação a como começou a se regozijar “na rica doutrina da comunhão dos santos” (p. 187).
No leito hospitalar, ao olhar para o crucifixo, Kimberly meditou sobre o sofrimento de Jesus que colocou em perspectiva o sofrimento que passava: “Essa hospitalizações foram instrumentos de Deus para me aproximar dele como nunca antes”, conclui (p. 188), o que se conecta com o que é mencionado de Madre Teresa no trecho desta Leitura (p. 184).
Sobre a experiência de olhar para o crucifixo, nas ocasiões em que eu estava no seminário batista (2003-2007) e sob aflição ou algum estresse maior que enfrentava, era comum entrar na primeira igreja católica que encontrasse no centro do Recife, em busca de silêncio e para descansar. A atmosfera do altar, o ambiente tranquilo em contraste com a correria do lado de fora, as imagens e o crucifixo me envolviam de maneira que me sentia acolhido e instruído a continuar na luta do cotidiano. No início era estranho para um seminarista batista encontrar um lugar para orar justamente em um templo católico, mas depois me dei conta que a capela do seminário ficava muitas vezes fechada e por outros fatores fui compreendendo melhor alguns aspectos que tornam as igrejas católicas mais acolhedoras. Quando olhava para as representações dos martírios nas esculturas e, sobretudo, quando fixava os olhos no crucifixo, percebia um significado que o vazio iconoclasta das igrejas evangélicas tenta preencher com versos bíblicos. A arte sacra muitas vezes com versos bíblicos tem maior profundidade. Eu sentia o quanto o sofrimento transforma e inspira. Naqueles dias começava a entender a imensa importância das imagens para a pedagogia da fé.
Outro significado das imagens pode ser compreendido na abordagem que Kimberly fez ao Padre Memenas (pp. 191-192). Quanto a isso, comentei com um colega do tempo de seminário, em uma conversa em 2023 pelo Zoom, sobre questões teológicas acerca de minhas experiências em igrejas católicas em visitas que realizei a igrejas na Itália, na França e em Portugal, além de ter mencionado minhas reservas ao espírito iconoclasta. Quando fiz a analogia que considero hoje das imagens com as “fotos de família”, então ele não resistiu e perguntou:
– Ah, o liberal virou católico?, e respondi:
– Teologicamente começou na mesma época lá no seminário e agora estou percebendo que é um caminho sem volta.
Torno à obra que o meu colega apologeta e caçador de heresias tanto abomina, e eis que penso sobre a dor profunda que pode nos aproximar de Deus, e em quantas ocasiões fui testemunha a começar de mim mesmo, mas também ela tem outros significados. Kimberly experimentou um deles quando Hannah, a filha de um ano e meio do casal, foi hospitalizada com febre que atingiu 40,6 e, em meio ao corpo que tremia, com o braço preso a um cateter intravenoso, sob panos gelados colocados por ela e pelas enfermeiras, a mãe sentiu o Senhor a lhe dizer o quanto a dor provocada na filha – para reduzir a febre – fazia parte do tratamento, assim como a dor que tinha passado (p. 189).
Kimberly estava deixando o protestantismo em transição para o catolicismo, seguindo o mesmo caminho de Scott, quando então teve que lidar com outra dor: o desgosto que deu aos pais que a educaram em uma rígida fé protestante (p. 190).
Sem crise não há salvação, lembro de ter dito um velho chavão que usava no tempo de seminário, que o fazia (e o ainda faz) rir, e da mesma forma penso que sem dor a fé não amadurece.
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