Imagem: Sociedade Brasileira de Sociologia

“Não ambicionamos o prestígio de país conquistador e detestamos notoriamente as soluções violentas. Desejamos ser o povo mais brando e o mais comportado do mundo.”
Obra: Raízes do Brasil. 7. Nossa Revolução. Cia das Letras, 1995, São Paulo. De Sérgio Buarque de Holanda (Brasil/São Paulo/São Paulo, 1902-1982).
Revivendo anotações sobre Raízes do Brasil, feitas por um certo jovem graduando em economia, lá pelos idos de 1997. Junto com leituras de História Econômica do Brasil [574], de Caio Prado Júnior, esta obra, do pai do famoso cantor e compositor Chico Buarque, ocupou àquele rapaz na tentativa de compreender melhor a história econômica do travado país em que cresceu.
Buarque de Holanda aponta um “elo secreto” entre a abolição da Escravatura e a “proclamação” (pensou pensou aquele jovem: “golpe de Estado!”) da República (p. 171), em meio a um processo de decadência dos centros de produção agrária, transformados em “colônias das cidades” (p. 173), “fator decisivo da hipertrofia urbana” (p. 172). O centro de gravidade do Brasil escravocrata estava no meio agrícola e, na combinação dos dois eventos, ocorreu um “definhamento das condições que estimularam a formação entre nós de uma aristocracia rural poderosa” (p. 173), possibilitando a migração do poder para os centros urbanos.
A cultura do café em superação a da cana-de-açúcar foi um elemento marcante nesse elo. O café, por não exigir grandes extensões de terra, tampouco aporte de capitais elevado, isso em comparação com a cana-de-açúcar, visto então como uma “planta democrática”, destacou-se no oeste da província de São Paulo, rompendo com o modelo clássico insistido em outras províncias, especialmente no Rio de Janeiro, de produção na lavoura canavieira até o engenho de açúcar (p. 174). O detalhe sobre essa vantagem do café (p. 173), citada por Buarque de Holanda em alusão ao historiador H. Handelmann, chamou mais a atenção do jovem pelo que entendeu como ironia em termos de maior envolvimento de agentes econômicos, em se tratando de uma sociedade que, em certo sentido, na Abolição de 13 de maio de 1888, virou palco de um dramático desapontamento de um traço do patriarcado (rural) enquanto se favorecia um outro tipo (urbano), alojado em uma “plutocracia, se assim se pode dizer” (p. 176) no que viria no ano seguinte em forma de república, anotou o jovem.
Em paralelo corria certa ociosidade na aplicação de mão-de-obra na cultivação da cana-de-açúcar, pensou sobre detalhes apontados pelo autor, seguida pela maior demanda desse tipo de recurso aplicado no café, cultura que se ligou aos centros urbanos em um cenário que tomou proveito do trabalho remunerado e não mais escravo, “pelo menos no rótulo”, pontuou, estabelecendo um fazendeiro “citadino” (achou o termo interessante, aplicado por Buarque de Holanda), distanciando-se da antiga baronia, “para se aproximar, em muitos dos seus aspectos, de um centro de exploração industrial” (p. 175).
Desta Leitura (em especial nas pp. 176-178) – refletiu aquele jovem – a cultura de cana-de-açúcar, então em franca decadência, ficou de mãos dadas com resquícios da monarquia nas entranhas da República fundada em um golpe, e assim foi tentando se segurar, denotando uma característica mantida na cultura política brasileira até nossos dias, e penso assim hoje, que consiste em tentar, naquele famoso “jeitinho” em forma de legislação confundida com lei, uma preservação de ineficientes econômicos que ficam resistentes à inovação dos negócios, presos às estruturas arcaicas da produção, amparados pela política, contando com intermináveis intervenções do aparato estatal que retroalimentam a indisciplina econômica, ajudando-os a se esconderem por trás de apadrinhamentos e ordenamentos jurídicos abstratos, criando um abismo com o Brasil real, ou, em outras palavras lembradas pelo autor, separando a política da vida social (p. 177), cultivando a crença que a letra morta pode “influir por si só e de modo enérgico sobre o destino de um povo” (p. 178). Foi nesse sentido que entendeu aquele jovem, e ainda pensa assim, sobre o que afirma Buarque de Holanda:
“A imagem de nosso país que vive como projeto e aspiração na consciência coletiva dos brasileiros não pôde, até hoje, desligar-se muito do espírito do Brasil imperial” (p.177).
Seria essa nossa revolução?, a “única que, rigorosamente, temos experimentado em toda a nossa vida nacional”, na visão do sociólogo e historiador?, sendo “lenta, mas segura e concertada”? Seria essa a revolução que vem “durando pelo menos há três quartos de século” (p. 171)? Uma revolução pacífica para um povo dado à passividade, penso, uma “revolução” que na verdade é um serviço para o atraso, regada no comodismo que amamenta as elites que sabem que o poder político pesa muito mais que o econômico, em um processo ardiloso que disfarça a cultura dos “amigos do rei”, fantasiada de proteção em favor dos que estão na base da pirâmide social.
574. 03/11/2022 23h43
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