Imagem: University of Oxford

Willem Kuyken

“Quando você começa a praticar a atenção plena, é bem provável que perceba o quanto sua atenção pode ser distraída, aleatória, dispersa e até caótica.”

Obra: Mindfulness para a vida. Como integrar a atenção plena ao dia a dia de forma prática e duradoura. 2. Preste atenção! Artmed, 2026, Porto Alegre. Tradução de Pedro Augusto Machado Fernandes. De Willem Kuyken.

Atenção fragmentada x Atenção plena

No final de 2024 ganhei da minha esposa um exemplar de Sem lama não há lótus, do monge vietnamita Thich Nhat Hanh. Foi a leitura inédita mais importante que realizei no ano e, certamente, entre as dez mais importantes que experimentei nos últimos cinco anos.

O ponto mais relevante do aprendizado se deu no capítulo 5 (Metta), quando refleti sobre a possibilidade de sondar o meu próprio corpo, “o ‘território’, através da meditação ‘para ver se ele está em paz ou está sofrendo de alguma doença'” inspirando e expirando para inspecionar “o coração, os pulmões, os rins, todos os órgãos trazidos à consciência” [575], combinando os dezesseis exercícios de respiração (pp. 85-93).

O mindfulness foi um desdobramento natural que, a princípio, despertou minha atenção para a “atenção plena” usada na terapia cognitivo-comportamental (TCC), área em que minha esposa atua como psicóloga. Eu estava mais interessado no sentido em que tinha lido de outra obra que li em 2023, também presenteada por minha esposa: Aprenda a viver o agora, da monja Coen. Refleti sobre o que a budista ensina sobre o tema da concentração, algo que se tornou para mim de extrema relevância no método de atendimento que desenvolvi durante a pandemia (2020-2021) com as vídeos conferências no Zoom sendo realizadas durante todo o expediente.

Outra obra que marcou aquele tempo pandêmico foi Rápido e devagar: duas formas de pensar [576], de Daniel Kahneman. Tive contato com ela de forma breve havia um tempo, mas quando senti a necessidade de depurar os princípios de meu método, a revisitei de forma mais profunda. Nela reconsiderei o peso da heurística no Sistema 1 (rápido, de tomadas de decisões imediatas), e a importância da concentração no Sistema 2 (lento, reflexivo, de decisões meditadas).

No ano passado então ensaiei o tema da “atenção plena” adaptado ao meu ambiente de trabalho em O que o mindfulness tem a ver com contabilidade? [577] Recentemente percebi que o mindfulness está mudando minha vida em diversos aspecto, a começar pelo auxílio na atualização de meu método de trabalho. Pessoalmente, foi aplicando as técnicas de respiração nos últimos meses que identifiquei, para tomar como exemplo, efeitos em meu corpo provocados por ingestão de determinados alimentos, sobretudo os “processados”, quando então decidi abandoná-los junto com o café e o refrigerante. Em seguida reduzi bastante o consumo de carne, incluindo frango e peixe. Do jeito que as coisas estão caminhando, com os pareceres de um endocrinologista e de nutricionista, é possível que sejam cortados em definitivo.

No trabalho, o mindfulness passou a ser referência na relação que tenho com clientes que vivem sob intensa atenção fragmentada, um drama que testemunho diariamente. No trecho, uma consequência da prática da “atenção plena” (p. 33), fato que verifiquei sob outra nomenclatura quando desenvolvi meu método a partir de 2020, onde estabeleci um modo de relacionamento em que passei a ficar pautado exclusivamente em um determinado cliente no Zoom por um tempo (1 hora), desligando-me dos demais. O método depende de que eu me envolva no abrandamento de efeitos causados pela atenção fragmentada nos clientes, o que enseja no estabelecimento de prioridades.

Foi na implementação que comecei a perceber o drama da dispersão na falta de concentração em usuários de sistemas e consultoria – a maioria contadores – que não conseguem estabelecer uma mínima ordem sequenciada de tarefas por graus de relevância. O problema ocorre em paralelo com o que chamo de “síndrome da onipresença”, um comportamento irracional quando tentam resolver diversos problemas ao mesmo tempo, incluindo o atendimento de ligações no celular, retorno de mensagens no WhatsApp, interrupções de terceiros (colaboradores e clientes) trazendo mais questões durante a reunião (normalmente fora da pauta), além de outros problemas os quais não apresentam senso de relevância. Em casos mais extremos, identifiquei sinais de transtorno de ansiedade na medida em que não param de pensar em problemas diversos e não conseguem uma mínima concentração para tratar o que de fato foi programado e importa ao momento.

O caso mais extremo de distração se deu em 2022, quando um cliente assinou um Sped Contábil sem se dar conta de que faltavam as despesas, cuja importação de lançamentos (aproveitados de outro sistema) no software de contabilidade falhou e ele também não tinha percebido. Encerrou o exercício anual, gerou o arquivo e deixou para conferir tudo no aplicativo do fisco (o que não recomendo). A tarefa então consistia em conferir um balanço patrimonial e uma demonstração de resultado no Sped, e enquanto lhe auxiliava no processo, decidiu atender a ligações e dar retornos no WhatsApp. Os alertas que lhe dei foram em vão. O curioso é que o problema foi descoberto antes da transmissão, quando desconfiei da insegura resposta que deu sobre a conferência por conta de sinais de elevado grau de tensão (semblante e tom de voz). Nesse ínterim descobri que, na verdade, ele estava a conferir duas escriturações ao mesmo tempo e não apenas uma (como tínhamos planejado), enquanto seguia com um cliente pelo telefone que lhe exigia atenção imediata por conta de uma carga presa em um posto fiscal. O resultado de toda essa atenção fragmentada foi a entrega de um Sped Contábil com a empresa apresentando um lucro estratosférico, por somente ter o registro de receitas, além de lançamentos entre ativo e passivo.

Quando identifiquei o erro, ainda em tempo, o que parecia um livramento, no entanto, teria um desfecho bizarro. Após receber o aviso do erro, seguiu fragmentando sua atenção; preso ao cliente no telefone e nos documentos enviados pelo WhatsApp para análise, no Sped Contábil alternava entre duas empresas assinadas pelo mesmo empresário e por ele, o contador. Nomes das empresas parecidos, distração nas alturas, cenário perfeito para o acidente onde assinou e transmitiu pensando que estava preparando a empresa sem erros quando foi a empresa que eu tinha alertado sobre a omissão de despesas.

Quem conhece relativamente bem o Sped Contábil, sabe o que significa o problema do Termo de Verificação para substituição da escrituração. O que escrever sobre um erro tão grotesco? O constrangimento o deixou ainda mais tenso, e enquanto preparávamos o texto para explicar o ocorrido ao fisco e ao Conselho de Contabilidade, o cliente pensava no que a Receita Federal iria entender da brusca queda do resultado, quando as despesas estivessem contabilizadas, eu o puxei para resolver o problema do Termo, para depois pensar no outro, quando então desabafou sobre o estresse profundo em que estava passando e indagou como eu consigo lidar com tudo isso.

Era sábado pela manhã, tínhamos mais tempo e aproveitei o momento para lhe falar sobre os três tipos de atenção do Professor Descalço (pp. 34-35) e no final entendemos que era necessário encontrar um método de trabalho para neutralizar a sua atenção fragmentada em favor da atenção plena, além de verificar junto a um psicólogo sua provável crise de ansiedade, a considerar também que é preciso aprender a lidar com esse possível transtorno em colaboradores e vários clientes do escritório, sobretudo o que estava com ele no telefone, exigindo de forma agressiva que lhe desse imediata e longa atenção.

Convivo com usuários sob diferentes níveis da atenção fragmentada e sinais de ansiedade acima do normal, e tenho percebido que o problema aumentou nos últimos seis meses. Tenho observado colegas de TI e profissionais de contabilidade sob estresse permanente, desnecessário, acelerados demais, sem se darem conta dos riscos que correm para a saúde mental, além de erros evitáveis que ficam mais suscetíveis. Em alguns casos mais graves, dentro de minhas limitações, interrompo a reunião para propor um pequeno exercício de atenção plena. Em termos gerais, quando atendo, ao perceber que o cliente está tentando resolver muitas coisas simultaneamente, sem direção, atuo na definição de prioridades e na promoção de uma autoconfiança de que, se resolvermos juntos, devidamente concentrados no aqui e agora, um problema de cada vez, nossa produtividade será infinitamente maior.

Os resultados são animadores, mas sigo refletindo no que me parece um sinal de alerta de que o mundo acelerado em que vivo precisa receber um basta.

575. 27/01/2026 20h00

576. 29/12/2024 13h49

577. 21/07/2025 21h34

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