Imagem: Mundaréu

‘Existem duas maneiras de ser imparcial: a do cientista e a do juiz.”
Obra: Apologia da história, ou, O ofício de historiador. A análise histórica. Zahar, 2001, Rio de Janeiro. Tradução de André Telles. De Marc Léopold Benjamin Bloch (France/Lyon, 1886-1944).
Eis o problema da imparcialidade a envolver a história como tentativa reprodução das coisas tais como ocorreram ou como tentativa de análise (p. 125).
Marc Bloch questiona a aplicação do termo “imparcialidade” e a considera equívoca quando então aponta as duas maneiras de ser imparcial. O cientista e o juiz têm em comum “a honesta submissão da verdade”, indica. Penso neste aspecto que ciência e direito possuem verdades conclusivas que não se arrogam como dogmáticas; podem ser questionadas, postas em discussão, observando-se a submissão apontada pelo grande historiador francês. Na política e na religião, penso, isso não normalmente é aceito em termos práticos, embora se apregoe o contrário.
O cientista e o juiz são dois agentes que devem se basear em fatos; o primeiro, mediante experimentos que colocam à prova determinada teoria, e o segundo por meio de provas, perícias, evidências, testemunhas e demais elementos que confirmem ou não determinada tese, no entanto, o cientista encerra seu trabalho mediante o observado e o explicado, enquanto juiz precisa ir além, pois lhe cabe declarar sua sentença inserindo um elemento que o remete a uma “tábua de valores, que não depende de nenhuma ciência positiva” (p. 125).
Onde se situa o historiador entre essas duas figuras que lidam com a imparcialidade? Estaria no alinhamento do cientista, ou caberia ir adiante como ocorre no ofício do juiz? Incluo nessa questão os que apreciam o trabalho do historiador, os que buscam o conhecimento da história e consomem suas obras.
O que pretendo ao buscar o conhecimento da história? Aprender verdadeiramente ou satisfazer minhas crenças?
E que tipo de conhecimento da história estou tendo acesso? Tendencioso? Enviesado? Sério? Será possível mesmo a imparcialidade na história?
As perguntas que fiz se deram no meu primeiro contato com esta obra, quando vivia uma transição de pensamento econômico (entre 2006 e 2010) e a história foi uma chave para minha mudança de mentalidade. Sempre me incomodou ao ler obras de história e notar o fato que Marc Bloch aponta, sobre o historiador ser uma espécie de “juiz dos Infernos”, enaltecendo ou amaldiçoando figuras históricas (p. 125).
Um juízo de valor – meu historiador preferido lembra – “tem sua única razão como preparação de um ato e com sentido apenas em relação a um sistema de referências morais, deliberadamente aceito” (p. 126). Outro ponto que destaco é que as ciências do mundo físico excluem o “finalismo” (p. 127),
O que pode estar por trás da análise de determinado historiador?
O que o motiva a emitir um juízo de valor além dos fatos que apurou?
O quanto penso ser “história” não passar de uma visão ideológica do historiador?
O historiador não é um sujeito alheio às paixões e ao menos lhe cabe ter uma: a de “compreender” (p. 128), sugere Marc Bloch, e completa:
“A história, com a condição de ela própria renunciar a seus falsos ares de arcanjo, deve nos ajudar a curar esse defeito. Ela é uma vasta experiência de variedades humanas, um longo encontro dos homens” (p. 128).
Sem mais.
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