
“Assim como uma árvore que passa,
Incólume pelas estações,
A vida nunca se finda:
De uma maneira ou de outra
A existência é eterna.
Julho 2000.”
Obra: O Gesto Emblemático. XX. A Vida. Liceu, 2000, Recife. De Gedeão Teodomiro de Souza (Brasil/Paraíba/Pombal, 1940).
Eis o “discretíssimo senhor”, pai de um amigo de infância, que morava em frente à minha casa no Cajueiro. Quando eu tinha 10 anos, ele ficava “tranquilamente lendo, encostado na janela, às vezes deitado em uma rede” [586], o que chamou minha atenção.
Aquele senhor do sertão, calmo, tão quieto e com um português digno de um professor da madre língua, não sabia, mas deixou um exemplo de apreço pela leitura, uma boa influência que guardei daqueles dias.
Este livro também é muito especial porque marcou um momento muito importante de minha vida. Foi o primeiro presente que ganhei de minha mãe na casa da Barão de Tracunhaém, no Cajueiro, após o longo período de minha ausência, entre dezembro de 1997 e setembro de 2000 [587].
E, entre as obras que estão na mesa, ao recordar daquele retorno, hoje cedo revisitei esta de “Seu Gedeão”, e destaquei a última estrofe (p. 87) de Vida a alcançar um tema que, para aquele meu eu de 25 anos, só passaria por uma mudança significativa de entendimento cerca de 15 anos depois. E essa concepção comentei com minha esposa, quando íamos a uma atividade típica de casal-dono-de casa.
– A morte, em um certo sentido, não existe, é uma mudança de estado. Espiritualmente saímos deste plano para um outro desconhecido, e fisicamente mudamos de forma – falei à minha companheira psicóloga.
Um tempo depois pensei que, nessa mudança, vendo consoante à perspectiva do plano terreno, ao sermos “do pó”, aqui me remetendo ao primeiro capítulo do Gênesis, na morte física “tornamos ao pó”, o que me fez imediatamente lembrar do Sermão da Quarta-Feira de Cinza. 1672 [588] do padre Antonio Vieira:
“Senhores, não só havemos de ser pó, mas já somos pó: Pulvis es” (p. 56), e de pó em pó a vida acontece. Ora, o que se chama de “vida” nada mais é que um “círculo que fazemos de pó a pó” (p. 59).
O assim chamado de “morto”, é o pó sem animação, em suma, somos pó… fragmentos da terra. Vivo ou “morto”.
Torno então ao “Seu Gedeão” que afirma em um verso anterior que “A vida nunca começa (A infância é ilusão que nasce sobre a velhice)” (p. 86), e logo em seguida (p. 87):
“Nós todos somos os mesmos
Reciclando as mesmas fases,
Tal como a lua faz ao mar,
Distribuindo-o em marés que se fundem,
E num simbolismo perfeito com a vida
Ela própria, cresce, mingua e se esconde !”
São versos que hoje exprimem, com precisão, o que penso atualmente sobre a vida em sua perenidade, e a morte como um fim de um ciclo, e não o fim de uma vida.
586. 12/04/2026 15h06
587. 26/01/2026 20h00
588. 18/02/2026 21h34
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