Imagem: Luciana Amorim

Stephen Hanselman
“Faça um inventário de suas obrigações. Quantas delas são autoimpostas?”
Obra: Diário Estoico. 4 de março. Consciência é liberdade. Intrínseca, 2022, Rio de Janeiro. Tradução de Maria Luiza X de A. Borges. De Ryan Holiday e Stephen Hanselman.
Os autores citam Sêneca: “Nenhuma escravidão é mais infame do que aquela que é autoimposta” (p. 100).
Você é tão livre quanto pensa?, pergunta capciosa análoga que recentemente me foi direcionada por conta da “rígida disciplina” que aparento viver em meu método de trabalho.
– Vejo todo santo dia você “batendo o ponto lá no grupo”, parece até que vive em um quartel, sem dar espaço para o imprevisto… – E então sugeriu se eu não estou impondo a mim mesmo um estilo de “trabalho-prisão”.
Gostei bastante da provocação; embaraçosa… convidativa à reflexão.
Primeiro, pensei, o que é ser livre? A liberdade, em muitas ocasiões, não passa de ilusão. Teoricamente é uma possibilidade mas, em termos práticos, não raramente, é preterida por conta de circunstâncias. Em outras palavras, sou livre na medida do possível.
Sou livre para levar a sério ou não os valores que afirmo acreditar, para cumprir ou não meus compromissos, mas o preço dessa “liberdade” se resolve na análise que faço de minha integridade moral, além do que entendo por danos e benefícios.
Mas, e então, será que estou preso em minha própria disciplina? Não estaria vivendo obrigações desnecessárias? Aliás, será que vivo em um método de trabalho sufocante, fechado demais, intolerante com imprevistos?
Começo pela última indagação. Quem me acompanha no cotidiano dos atendimentos sabe que há espaço para imprevisto. Há quatro janelas de horários em meu método que são destinadas, em alguma ocasiões, ao trato de problemas que surgiram no decorrer do dia (08h00-09h00, 11h00-12h00, 14h00-15h00 e 17h00-18h00). Contudo, é comum se pensar que contingência justifica desordem em atendimento. Tenho razões técnicas para não atender a ligações telefônicas, não interromper reuniões para tratar de outros assuntos em modo aleatório, no entanto a aleatoriedade, considerando que há um meio para registrar intercorrência no decorrer do expediente que, a depender da gravidade, entra uma ordem de tarefas a serem cumpridas no restante do dia.
A segunda questão envolve o que entendo por relevância acerca do que os clientes estão dispostos a tratar. É uma interação onde busco um sentido lógico e prático para não alocar o tempo disponível sem propósitos que sejam claros, bem definidos. Quando percebo um cliente sem saber bem o que fazer em um agendamento (quando fico, no mínimo, por uma hora à disposição), tento auxiliá-lo na definição de prioridades para que o agendamento seja aproveitado da melhor maneira possível, além de que, em muitas ocasiões, já há uma pauta pré-definida.
Finalmente, cheguei a primeira e mais importante questão. Muitas vezes sou convocado para trabalhos “fora do expediente”, via de regra, com alguma vantagem extra, financeira. A resposta é sempre a mesma: não. Alguns clientes parecem não compreender a recusa. Parece não fazer sentido abdicar de um ganho adicional quando explico que não trabalho com suporte e consultoria para TI contábil fora do expediente, pois desenvolvo outras atividades as quais nenhum dinheiro pode compensar, nenhuma pressão justifica, tampouco algum constrangimento possa me impor (caso contrário, o trabalho seria mesmo uma prisão), a interesse de terceiro por mais privilegiado ou bem quisto que seja.
E uma dessas atividades, acabei de realizar.
Amo o que faço profissionalmente e gozo de alguma liberdade de acordo com a minha consciência para fazer o que entendo que cabe de ser feito. Procuro não ser compelido, nem atrapalhado, nem limitado, no exercício de ser “livre”, como sugere Epicteto na abertura da leitura estoica do dia.
Fora do trabalho de TI contábil tenho outros amores que nenhum ganho financeiro pode suprir.
Há alguma liberdade quando se tem consciência do que está sendo feito, os porquês, as razões de ser. Não existe liberdade quando se age sem discernimento, muitas vezes apenas para atender a desejos e/ou interesses que dizem mais sobre o que os outros pensam sobre mim ou querem simplesmente explorar quanto ao que sou útil, do que minha própria consciência diz a respeito.
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