Imagem: wikipedia.org

Fiódor Dostoiévski

“[…] como pode viver sob um céu assim toda sorte de gente irritadiça e caprichosa?”

Obra: Noites Brancas. Primeira Noite. Editora 34, 2009, São Paulo. Tradução de Nivaldo dos Santos. De Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Império Russo/Moscou, 1821-1881).

O meu primeiro mentor me incentivou a ler Dostoiévski. Eu tinha 19 anos e a felicidade de receber influências significativas naquele maravilhoso início de minha juventude, entre professores, colegas e pessoas mais próximas que formavam um círculo restrito que conversava sobre literatura. Fora um tempo de grata experiência distante de estereótipos sobre o ambiente universitário.

Crime e Castigo, e logo depois Memórias do Subsolo marcaram aquele tempo. Alguns anos se passaram quando apreciei O Idiota e Os Irmãos Karamazov, que fluíram rapidamente quando encontrei a dita meia idade. Lembro-me do quanto Noites Brancas fora comentada no grupo de literatura que eu participava durante a graduação e, por conta de uma insuficiente razão, ficou entre as que eu não tinha lido até minha recente visita à livraria Leitura, no último dia 26. Quando entrei na loja, fui então direto para as obras de Dostoiévski e a escolha deste romance foi imediata.

Quando li a abertura da Primeira Noite:

“Era uma noite maravilhosa, uma noite tal como só é possível quando somos jovens, caro leitor. […]” (p. 11)

Fechei, dei um sorriso que senti mais no pensamento do que na linguagem corporal. Fui a uma mesa para conferir essa noite debutante onde o sol não se põe, do fascinante Sonhador. As notas de rodapé são muito interessantes. Uma senhora sentou próxima e comentou, olhando para a edição que adquiri: “obra-prima”, enquanto parecia avaliar uma edição capa dura de Os Irmãos Karamazov.

Nessa primeira noite o Sonhador que se encontra com a jovem Nastiénka e inicia uma história um tanto onírica, está sob um traço que logo me identifiquei: a forma poética e bem humorada como se relaciona com a sua cidade em meio a sentimentos dos mais inquietantes, principalmente, quando mentaliza um diálogo com suas “amigas” de concreto (pp. 12-14). Então pensei o quanto olho de maneira tão similar para o Recife como o Sonhador olha para Petersburgo.

A fraterna amizade desse primeiro contato do Sonhador, inusitado, a quebrar uma melancolia, ensaia a ideia de um sonho de juventude que parece desiludida, enquanto tão ingênua e deslumbrante, mas ao mesmo tempo um prenúncio da jovem: “Não se apaixone por mim” (p. 24). E o desenvolvimento nas noites que seguem irá amalgamar sentimentos e expectativas na genialidade de Dostoiévski.

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