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“Saber sob que condições se deve conduzir a riqueza sempre foi e continuará sendo um conhecimento de natureza contábil.
Como grande parte dos empresários e dirigentes de entidades não possui conhecimento suficiente para entender a linguagem dos balanços e demonstrativos contábeis, necessita de quem os analise, explique e interprete.”
Obra: Artigo. Carência de consultores contábeis. Agosto, 2007. De Antônio Lopes de Sá (Brasil/Minas Gerais, 1927-2010).
Agosto de 2001, Recife – Meu colega de estudos sobre crescimento econômico endógeno, sujeito um tanto exigente com palestras, não parecia muito animado com o convite para me acompanhar na oitiva da conferência de encerramento do Prolatino V.
Tinha lhe prometido que seria uma experiência inesquecível. Expliquei para ele que, apesar de ter escolhido Economia, não saía de minhas veias a Contabilidade, amor que nasceu ainda na pré-adolescência (1984), entre as primeiras aulas de Basic e Cobol do Datacenter no centro do Recife. Quando menino, testava minhas definições de “débito, crédito e saldo”, se estavam corretas em relação aos relatórios que minha mãe trazia para analisar em casa, da empresa onde trabalhava no setor contábil.
Empolgadíssimo naquele agosto de 2001 eu estava, pois iria ver de perto o que para mim representava o filósofo da contabilidade, uma personalidade sagrada no meu universo de leitura, um genuíno intelectual brasileiro, figura internacionalmente reconhecida das ciências contábeis, um pesquisador que desenvolveu a teoria neopatrimonialista, homem de enorme envergadura técnica, ética e moral.
Após a conferência, meu colega ficou perplexo (poderia ter pesquisado antes sobre os trabalhos de Lopes de Sá) acerca do que tinha acabado de ouvir.
– Que homem culto! Que teoria impressionante! – exclamou e respondi:
– Se tivesse que ser escolhido um brasileiro para representar o país entre todos os maiores intelectuais do mundo, entendo que seria ele.
Lopes de Sá foi outro gentleman da academia que pude cumprimentar. Humilde, devotado às ciências contábeis, foi um erudito de simplicidade contagiante. Leitor de suas obras desde o início dos anos 1990, a experiência in loco foi uma das maiores satisfações que tive durante os tempos de universidade.
Passaram-se seis anos quando fui convidado (por uma TI) para falar em uma turma de graduandos em Contabilidade de uma faculdade do Recife. Era setembro de 2007. O tema: Consultoria em Contabilidade. Tinha acabado de ler o artigo Carência de Consultores Contábeis do professor Lopes de Sá e o conteúdo da palestra foi desenvolvido a partir de reflexões sobre o referido texto.
O que segue abaixo é um resumo dessa palestra:
Autoridade, eis o primeiro termo que me vem à mente quando penso na figura do contador, e isso aprendi na pré-adolescência a observar minha mãe na análise de balanços e demais demonstrativos, período em que brincava de conferir se tinha acertado o “débito”, o “crédito” e o “saldo” no razão. Um tempo depois, me aventurei em meu primeiro aplicativo de escrituração baseado em partidas dobradas, para ajudá-la na conciliação do caixa, lá pelos idos de 1990 quando microcomputadores e sistemas de contabilidade não eram comuns nas empresas.
Então cresci com essa ideia de “contador-autoridade”, “contador-referência”, “contador-chefe”, do indivíduo muito importante na cadeia de comando de uma empresa que se preze, que sabe a situação do negócio e deve ser ouvido como base para tomada de decisões.
Quando fui trabalhar fornecendo sistemas para escritórios de contabilidade, a partir de 1991, comecei a notar que o conceito de “contador” que aprendi, nessas organizações, não era exatamente o mesmo. Primeiro, vi que não havia muita ênfase em balanços e análises interpretativas e sim na apuração precária de fatos contábeis para fins de elaboração de guias de impostos e emissões de DARF, além de que muita coisa era feita no chamado “lucro presumido” [586]. Logo percebi que “escritório contábil” tinha muita coisa, porém, pouquíssima contabilidade e se quisesse trabalhar com contabilidade de maior nível, teria que procurar empresas de certo porte como clientes.
Quando o Simples Federal foi instituído em 1996, com efeito inicial a partir de janeiro de 1997, notei que demandas de escrituração contábil caíram drasticamente nos escritórios. Foi quando comecei a entender que “escritório de contabilidade” estava sendo canalizado para outra coisa: uma espécie de repartição terceirizada dos fiscos e não um lugar onde se pratica contabilidade por excelência. O trabalho foi condenado a virar caricatura, digo “caricatura”, porque contabilidade de certa forma havia, mas de maneira muito rudimentar quando a comparava com o que aprendi nos anos 1980 e o que observava em empresas.
A Contabilidade está morrendo nos escritórios?
Preciso enfatizar algo:
Depende de onde se está observando. Nos escritórios “contábeis”, certamente. Nas grandes empresas, isso é impossível de ocorrer.
Contador nesta reflexão que faço aqui é o profissional cuja autoridade consiste em prover de sentido de valor a peças contábeis na medida em que as analisa e interpreta para dar ciência “como o negócio se desenvolve”, como afirma o mestre Lopes de Sá em recente artigo intitulado Carência de Consultores Contábeis. Entendo que é a partir deste ponto que se torna possível o contador ser “autoridade”; é a chave para se realizar nos mercados a sua legítima valorização. Então, entendo que a afirmação de que a Contabilidade está morrendo nos escritórios, parte de uma visão sobre um perfil de profissional que compõem a maioria, não trabalha com escrituração, tampouco com interpretação de peças contábeis, porém não faz parte da realidade dos pouquíssimos profissionais que lidam com Contabilidade de verdade, de alto nível em grandes organizações.
O que vejo hoje, infelizmente, é a predominância do despachante com CRC, o agente “darfista” que exige valorização, a cobrar por algo que não realiza como contador. Vocês estão em um curso de graduação e precisam escolher o que pretendem com essa profissão tão importante para a sociedade. Se irão se pautar na atividade que serve ao fisco, ao aparato estatal, ou se vão contribuir para a disseminação de contabilidade de alto nível nas organizações. Adianto para vocês que o professor Lopes de Sá indica que a carência de profissionais neste nível é algo global, senão vejamos:
“Pouco adianta o recurso de sofisticadas organizações, complicadas demonstrações, se não existe quem possa explicar e interpretar os fatos ocorridos com a riqueza e qual o destino a esta reservado.
A falta de consultores contábeis altamente qualificados no mercado mundial está exatamente na deficiência da formação cultural volvida apenas para o “saber escriturar e demonstrar” em vez de se preocuparem muitos professores e estabelecimentos em educar para saber por que se escritura e demonstra.”
Em 2024 revisitei o texto desta palestra e fiz uma atualização para o tema da robotização e da dita “inteligência artificial” (IA).
Comecei com um perfil comum que identifiquei na figura, cada vez mais rara, do “contador-autoridade”:
1. Profissional liberal ou empregado, é expert em Lucro Real e contabilidade de custos. Quando liberal, sua carteira consiste em pouquíssimos contratos (entre 2 e 5). Atua como contador-chefe para supervisionar trabalhos de escrituração que, não sendo empregado, são realizados totalmente nas dependências dos clientes e não em seu escritório que funciona apenas como uma base de apoio;
2. Balanços, balancetes, demonstrações de resultado, fluxos de caixa, diversas demonstrações e análises de evolução patrimonial com apresentação de pareceres a sócios e investidores (alguns na categoria anjo) fazem parte da rotina profissional mas não representam a parte principal.
3. Trabalha com um elevado nível de integração entre os departamentos com sistemas diversos. Há pouco trabalho manual nas escriturações, incluindo a parte de conciliação bancária e baixa de pagamentos onde faz uso de robotização para otimizar processos.
4. Alguns liberais não se dispõem para trabalhos em micros e pequenas empresas, pois ainda no início da carreira perceberam que nesses portes dificilmente haverá espaço para trabalhos de contabilidade no nível desejado, dado o ambiente de negócios ser muito nocivo por causa das exigência do Estado, que s[o podem ser cobertas por empresas de porte maior.
5. Prefere não se envolver diretamente com serviços do departamento pessoal e dos recursos humanos. Alguns prestam consultoria tributária nessas áreas, quando requisitados ou quando precisam passar orientações sobre natureza de operações e apropriações contábeis.
6. Serviços no âmbito da burocracia que envolvem elaboração de guias de recolhimento, abertura de empresas, alterações contratuais e outros problemas com documentação com os fiscos são realizados por auxiliares à disposição nos clientes ou despachantes/parceiros, conforme o caso.
7. Não crê que a IA consiga substituir à altura o trabalho humano do contador e que os robôs ajudam bastante com trabalho repetitivo. Acredita que a ética é fundamental para a construção de uma carreira sólida na área.
Enquanto o despachante com CRC pode desenvolver receio com a IA (pode também tomar grande proveito dela), quanto à dispensá-lo do trabalho repetitivo de apurar e emitir guias de impostos, o contador-autoridade usa a IA para abrir mais espaço em sua agenda de trabalho, inclusive potencializando a produtividade de seus auxiliares, que também devem versar sobre a contabilidade e não atuarem como despachantes. Uma equipe sofisticada de contabilidade costuma ver a IA, pelo que percebi, como uma ferramenta de exponencial aumento da produtividade que vai possibilitar trabalhos contábeis mais depurados e cirúrgicos, na medida em que se entende que o fator humano intelectual ainda é fundamental na interpretação dos fatos apurados na contabilidade.
Por fim, o contador-autoridade é perene, atemporal, fundamental. É um profissional que lidera, inspira, sinaliza, e dá saltos na evolução da contabilidade. Em outras palavras, estou a falar de um agente de vanguarda cuja diferença e distância com o “darfista” ou taxmaker devem ser consideradas para a compreensão mais precisa dos fenômenos de mercado que afetam a valorização desses dois perfis. Considerar tudo como a mesma coisa é ignorar a Contabilidade como ciência que atravessa os tempos e se renova.
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