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– Tu és filho de Xangô. – Pegou uma guia colorida de contas marrons e brancas, e passou-a no pescoço de Holmes […]
Obra: O Xangô de Baker Street. Capítulo 20. Companhia das Letras, 2011, São Paulo. De José Eugênio Soares (Brasil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro, 1938-2022).
Entre os livros que perdi quando deixei a casa de meus pais naquele histórico (per me) 10 de dezembro de 1997 está O Xangô de Baker Street. É fascinante ver como uma obra se conecta com fatos relevantes de minha vida.
Na correria entre a desocupação do escritório da Rua das Pernambucanas (onde os guardava) e a transferência para a pousada em que moraria até me casar em dezembro do ano seguinte, foram extraviadas obras que tiveram maior impacto no início de minha juventude: uma edição em português de O Nome da Rosa, de Umberto Eco, uma de Ecce homo, de Nietzsche, que usei para produzir o marcante artigo de 1995 sobre o Amor fati, além de uma de O Carteiro e o Poeta, de Antonio Skármeta e de Dostoiévski, Memórias do Subsolo e Crime e Castigo. Também perdi livros de programação que usava desde meados dos anos 1980, no início da adolescência.
Era dezembro de 1995. Eu e meu colega do quarto período de economia estávamos de férias da universidade. Ele também era seminarista da confissão batista e tentava me convencer a ingressar no seminário da Rua do Padre Inglês (isso se tornaria realidade oito anos depois). Decidimos fazer um “happy hour literário” com a nossa professora de econometria e escolhemos a tradicionalíssima Livro 7 (quanta saudade!), livraria icônica que ficava na Sete de Setembro, centro do Recife. Quando adentramos naquele mundo enorme no início da tarde, lá estava em destaque O Xangô de Baker Street. Olhei para a professora, ela olhou para mim, nosso colega fez o mesmo e dizemos em pensamento: será este o livro que vamos finalizar hoje. Comprei o meu exemplar, a professora o dela, mas o nosso acompanhante mudou de ideia preferindo uma obra sobre Dom Jacques Gaillot (1935–2023).
As leituras foram dinâmicas. Lemos o primeiro capítulo. Em seguida ela ficou com os capítulos pares, e eu fiquei com os ímpares. Fazíamos um breve comentário da experiência para conectarmos o roteiro de um com o outro, após a conclusão de cada capítulo e seguíamos para os dois próximos. Dávamos pausas para ler os comentários do nosso colega sobre trechos que ele destacara do livro acerca do progressismo do bispo francês. Finalizamos consumindo horas à base de cafezinho e pão-de-queijo, já tinha anoitecido.
Enquanto trocávamos comentários sobre o romance, nosso seminarista ficou ainda mais empolgado com o enredo de Sherlock Holmes abrasileirado pelo talento imenso do Jô. O lendário detetive da literatura britânica foi parar em uma consulta a um babalorixá durante uma investigação no Brasil, quando então descobre que é “filho de Xangô”, assim resumiu a professora; nosso companheiro caiu em risadas quando ela destacou o trecho (p. 303) desta Leitura.
Os risos ficaram ainda mais intensos quando a professora, que tinha dotes de atriz, resolveu interpretar o babalorixá na fala do romance:
– É para usar sempre essa guia, meu filho. Nunca te esqueças: Xangô é teu pai. Xangô é teu protetor.
Eu tentei representar o Holmes, mas não deu muito certo. O mais importante é que pudemos ver nos olhos dele a alegria com aquela singela experiência de leitura, feita através de um “texto falado”, sendo um exercício auricular (o conceito ele tinha me ensinado do que aprendera no seminário sobre as tradições bíblicas), e o mesmo sentimos quando ele resumiu o livro sobre Gaillot.
São momentos simples assim que se tornam inesquecíveis.