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“Foi passando aquele medo
do medo que tinha do LOBО.
Foi ficando só com um pouco
de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo
e ela ficou só com o lobo.”

Obra: Chapeuzinho Amarelo. Yellowfante, 2026, Belo Horizonte. Ilustrações de Ziraldo. De Francisco Buarque de Hollanda (Brasil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro, 1944).

19811999 [600]

Choveu por toda uma noite naquele carnaval de 1981 que passei na casa de minha vó materna. Cada trovão era um monstro que explodia tudo no céu e queria me pegar, e então corri para debaixo da cama. O clarão dos relâmpagos pela janela completava um cenário do terror que moldava minha imaginação.

No universo de Chapeuzinho Amarelo, ficou somente o lobo, foi-se medo. No meu estava o terrificante monstro-trovão naquele ano. Ele se materializou à mesa no dia que cantaram para mim e comecei a entender que era o meu aniversário, revelando um novo sentido para a curiosa palavra “família” que há algum tempo tentava compreender. Olhava para os meus pais, para o bolo, para as velinhas e para os balões que estouravam em um ensaio do que sentiria quando tentei sair da chuva de doces, confetes e coleguinhas no quebra-panela.

Minha vó “Bebé” entrou no quarto e sentou na cama. Ela também tinha medo dos trovões e a cena se tornou hilária enquanto tentava me convencer a sair de meu esconderijo. Assim dava pequenos gritos em cada trovejar acompanhando os meus em uma insólita sinfonia. Passamos a madrugada juntos […]

O bolo de lobo fofo, que no lúdico a Chapeuzinho Amarelo um monte de medo venceu, naquele meu mundo estava centrado em “Bebé” que estava bem ao meu lado na mesa para fazer daquele dia o que caberia ser quando pensava no medo. Quando se passaram 17 anos e lá eu estava novamente no meu refúgio, lembramos daquela sinfonia de gritos, relâmpagos e trovões.

Senti um conforto extraordinário e deixei o refúgio para sentar ao seu lado. Um ficou aprendendo um pouco com o medo que o outro sentia. Foi aos seis anos e o que consegui recuperar daqueles flashes tão dispersos ecoaria em um momento de minha vida adulta.

Foi o mesmo conforto que senti em meus 24 anos naquelas visitas [601] que sarariam a minha terra.

600. 04/05/2026 22h00

601. 04/06/2026 13h42, nota 590.

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