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“Muito antes dos modernos estudos sobre ‘religião civil’ , Friedrich Karl von Savigny já havia percebido que todas as legislações do mundo moderno eram expressões de valores cristãos […]”
Obra: O Jardim das Aflições. De Epicuro à ressureição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil. Capítulo 10. Na borda do mundo. §33 Retorno ao MASP e ingresso no Jardim das Aflições. Vide Editorial, 2015, Campinas. De Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Brasil/São Paulo, 1947-2022).
Hoje entendo que se trata da mais importante obra do filósofo brasileiro.
A menção ao que Savigny aponta sobre a cristianização dos estados modernos, lembrou-me um pouco o “siamo tutti cristiani, anche gli atei” da famosa palestra do professor italiano Umberto Galimberti. Talvez por isso muitos confundem o comunismo apostólico no livro de Atos com o comunismo marxista a partir do dito “socialismo científico”. Tal confusão atinge até mesmo o entendimento de senso comum sobre a doutrina social da Igreja com pautas de partidos de esquerda. Quanto a isso, sempre me foi curioso pensar que já vi muitos raciocinarem como se o comunismo rotulado em Marx influenciasse originalmente certas teologias cristãs, quando na verdade a partida inicial se de de forma contrária, e com uma grande dose de distorção com base em outra confusão: o comunismo primitivo das primeiras comunidades cristãs estava baseado no voluntarismo, sendo pacifista, em um certo sentido (se bem que a história de Ananias e Safira destoa bastante), e o comunismo moderno foi encontrar base na imposição, na compulsão e na luta armada.
Não que a politização de esquerda (e de direita também) do meio religioso cristão não aconteça de forma contundente e danosa, e sim que essa influência se deu inicialmente através de princípios evangélicos que, ao serem relidos no ambiente político laico moderno, houve uma mutação onde a parte teísta acabou dando lugar a ateísta, o altruísmo foi vencido pela violência revolucionária e Cristo passou para um plano bem inferior para tornar possível a pregação do materialismo dialético.
Eis o que penso, não o autor, imagino.
Olavo de Carvalho associa toda a substância da ideia democrática aos princípios religiosos (p. 398), no caso, cristãos, e pontua que nos Estados Unidos há uma diferença: “a casta sacerdotal não é cristã, e sim maçônica” (p. 397). O filósofo então aponta uma “heterogeneidade essencial” das forças macônicas e cristãs que ocultou essa condição norte-americana, algo que permitiu Abraham Lincoln “passar em público por grande líder cristão” (p. 399).
E hoje quantos conseguem passar como líder cristão na essência do que ocorrera com Abraham Lincoln, a considerar a leitura do filósofo brasileiro?
Não é preciso fazer muito esforço para observar que tanto na direita, como na esquerda, a pregação construída sob uma linguagem violenta parece passar desapercebida sob uma áurea religiosa atribuída a determinado líder.
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