Imagem: Poetry Foundation

“todos tenham a bondade de compreender que eu repilo qualquer simulação de delicadeza que tiverem a hipocrisia de demonstrar para comigo.”
Obra: O Morro dos Ventos Uivantes. Capítulo XXX. Record, 2013, Rio de Janeiro. Tradução de Rachel de Queiroz. Grandes Traduções. De Emily Jane Brontë (UK/England/Bradford/Thorton, 1818-1848).
Na segunda geração deste romance está Cathy Linton, fria, fechada, para aqueles que assim foram com ela quando reclusa com o marido doente. O Sr. Linton fora tratado como se a vida dele nada tivesse de valor (p. 344) no jogo de interesses das famílias.
A violência em forma de palavras entre “amor” e ódio é uma tônica neste romance que atravessa os tempos. Sempre coloco amor entre aspas quando aprecio este romance porque entendo que retrata delírios humanos regados a paixão, obsessão, ódio e recalques confundidos muitas vezes com um sentimento puro e belo. É justamente por isso que considero esta obra um primor. À mon avis, Emily Brontë foi talentosa o suficiente para não desenhar essas contradições, deixando os códigos para os leitores se ocuparem.
No luto de Linton, sem herança no testamento, tendo sido coagido ou não o marido (p. 346) na rede de tramas e conspirações enquanto precisou se ausentar, a jovem se descobre na pobreza e sem amigos (p. 346). Fica amarga (p. 345) e, diria, revoltada ao extremo da vingança (aqui imagino como leitor outra tônica na obra), mas adota o pragmatismo de ficar em Wuthering Heights e não se perder pela ira e pela frustação que marcou o desfecho de sua mãe; eis a personagem que é, penso, uma espécie de “eterno retorno” da mãe, Catherine. Cathy passa por uma colcha de retalhos de problemas familiares que a fazem trilhar com figuras fortemente impactadas por sua mãe, sobretudo Heathclif, personagem não apenas atormentado pelo assombro que passa pelas duas gerações no romance, mas, sobretudo pasmado com as semelhanças dela com o seu “amor” indecifrável que o levou à necrofilia e a uma espiral auto destrutiva.
Ela dispara no trecho (p. 349) desta Leitura o que amadureceu sobre a indiferença e o vazio que ficou em como passou na morte do esposo, reproduzindo mais uma vez uma camada peculiar das narrativas da primeira geração. Quase dois anos depois, a hostilidade da jovem viúva a Hareton, um dos alvos de sua indignação, deu lugar a uma curiosa amizade (p. 373) construída pela autora com ares de outra pretensão e junção de situações que a mãe não conseguira lidar bem, tendo mais uma vez, o pano de fundo do velho Heathclif, que insiste em uma interferência por ressentimentos moldando cada vez mais sua perdição com a obsessão pela falecida Catherine, algo que se perpetua em sua morte em causos (p. 395) de fantasmas dos dois protagonistas da história vagando pela propriedade.
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