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Leo Huberman

“A IDADE DOS FUGGER foi também a idade dos mendigos […] Um quarto da população de Paris era constituída de mendigos […]”

Obra: História da Riqueza do Homem. Capítulo 9 – “…Homem Pobre, Mendigo, Ladrão”. Editora Guanabara, 1986, Rio de Janeiro. De Leo Huberman (EUA/Nova Jersey/Newark, 1903-1968).

Quando abandonei a crença no marxismo em 1995, muito por conta de leituras e reflexões com o meu mentor à época, eu ainda tinha ideias socialistas bem enraizadas, e hoje entendo que aquela condição foi natural, normalíssima, por conta de um processo de revisão das próprias ideias de forma lenta, gradual, E assim me tornei um social democrata, ficando menos progressista e mais conservador até chegar no austrolibertarianismo a partir de 2006.

Essa trajetória não me impediu de manter minhas leituras e oitivas de marxistas e progressistas de diferentes concepções. Certamente isso ocorre em minha vida porque conservo o receio de me fechar em crenças de qualquer natureza, além de que entendo que estudar o pensamento de quem vê o mundo de forma diferente da minha, pode me ajudar a aprender mais sobre o mundo e a visão que tenho dele.

Isso posto, observo que o roteiro de Leo Huberman quanto ao que vai suceder o capitalismo ainda faz sentido, pelo menos na visão de marxistas que conversei ao longo desses 30 anos em que realizei a primeira leitura e, sob determinada perspectiva, a tese do professor Varoufakis [592] seria apenas uma fase do que entendem por decadência do modo de produção capitalista.

O socialismo marxista como teoria econômica inviável foi o que assimilei da Escola Austríaca, mas para entender como pensam os que entendem de forma diversa, preciso me inserir no lugar deles. O que importa nesse tipo de leitura não é quem está com a razão, e sim o que entendo por “setup de raciocínio”. Muitas divergências não são construtivas para quem nelas se envolve, justamente porque as partes em questão não consideram as diferenças de “setups”.

Nesse espírito, torno a 07/08/1996 (data anotada no trecho do livro) quando estava diante do capítulo 9 desta obra e pensei sobre as causas da miséria das massas na era dos Fugger, caracterizada por um ciclo de grande prosperidade para poucos? (p. 97). Hoje pensei que a forma como reagi ao texto pode ter sido influenciada enormemente pelo meu estado de espírito naquele tempo, mas, mesmo assim, ainda tive condições de anotar um dos fatores que prejudicaram bastante as camadas mais pobres: a “revolução dos preços” (assim registrei de punho na p. 99), causada pelo aumento do volume de prata e ouro (p. 101), extraídos da América para a Espanha desde o início da exploração do “novo mundo”. Em outras palavras, houve um longo processo de inflação por mais de cem anos, no sentido dado pelos clássicos em termos de aumento da quantidade de dinheiro (metais preciosos como meios de troca) em circulação na Europa que o autor, diga-se de passagem, marxista, admite como explicação. A inflação, sendo um fenômeno econômico que beneficia os detentores dos meios financeiros enquanto castiga cruelmente os mais pobres, esteve assim por trás, em parte, da miséria, juntando a outros fatores, entre os quais estavam as guerras (pp. 97-99).

Nos séculos XVI e XVII a figura do estado nacional entrou em destaque com a inflação comprometendo ainda mais as contas dos governos (p. 102). Sobre isso, pensei em La bancarotta dello stato: le cause della rivoluzione francese, do professor Alessandro Barbero [593]. Torno então a Huberman que menciona o problema dos salários, mesmo quando reajustados, sem condições de acompanharem o custo de vida em um ambiente inflacionista, problema que se tornou ainda mais delicado com o que anotei quanto ao “aumento da oferta de mão-de-obra” (p. 108), combinado com a devastação que o fenômeno monetário causou nos arrendamentos de propriedades rurais, o que tornou inviável a renovação de contratos, esvaziando o campo e gerando levas de trabalhadores rurais desocupados e sem perspectiva (p. 106).

Por fim, penso na Oração dos senhores de terras, que surgia na época e implorava pela compreensão dos senhores proprietários com os arrendatários, mas, narra Huberman, a prece não surtiu efeito: os preços continuaram subindo e “aldeias inteiras foram evacuadas, com os habitantes expulsos morrendo de fome, roubando ou mendigando na estrada” (p. 107).

Vejo a economia como um espectro da ordem natural da vida e essa “ordem” muitas vezes pode trazer muito sofrimento, descontentamento e indignação, por conta na natureza de um de seus agentes: o ser humano. Em suma, o modelo de produção é um elemento nessa cadeia que é fortemente impactada pelo que o ser humano manifesta de forma dispersa em termos de desejos, proporcionando o que impede o funcionamento de teorias intervencionistas no escopo do socialismo marxista.

592. 09/06/2026 22h00

593. 02/01/2023 21h56

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