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 Jessé de Souza

“[…] a necessidade última e mais profunda do ser humano em sociedade é precisamente auferir autoestima e reconhecimento social. […]”

Obra: O Pobre de Direita. A vingança dos bastardos. 2. As raízes históricas da extrema direita no Brasil. III. O pobre remediado e a manipulação de sua fragilidade social. Civilização Brasileira, 2024, Rio de Janeiro. De Jessé José Freire de Souza (Brasil/Rio de Grande Norte/Natal, 1960).

Ontem, o filósofo Olavo de Carvalho. Hoje, o sociólogo Jessé de Souza [566]. Ontem, uma crítica sobre a pobreza que gera direitos. Hoje, uma crítica sobre a pobreza remediada que serve a interesses de manipulação. Ontem, a vitimização de pobres que mascara a banalização da delinquência. Hoje, o oportunismo de ricos que remediam pobres para mascarar sua hegemonia.

Entre a classe média “real” (que não é tema do livro, p. 80) e os marginalizados se situam os “pobres remediados” que passam a marcar sua posição social “mediante a oposição ao pobre e ao preto”. Neste status intermediário e remediado, este pobre desarmado, remediado, diria seduzido e iludido pela ideia, penso, superestimada de sua posição em relação aos mais vulneráveis, (torno então ao autor) acaba como instrumento em favor das classes superiores na oposição aos marginalizados, assim define o sociólogo (p. 76).

No trecho desta Leitura, Jessé de Souza se opõe à ideia (entendo um tanto presente no senso comum) de que o dinheiro ou o aspecto financeiro seja o elemento mais relevante quanto à “necessidade última e mais profunda do ser humano”. Aqui o autor chega também a uma questão filosófica, penso, bem complexa e com uma imensidão de elementos de subjetividade, não sendo apenas sociológica, tampouco econômica, contudo, entendo ser importante na experiência de leitura ficar restrito à linha científica da abordagem do professor quando se elencam os elementos da “autoestima” e do “reconhecimento social“, para entender o seu raciocínio ao apontar duas formas para alcançá-los: a primeira, pelo “respeito individual a todos, ou quase todos”, como ocorre nas sociedades europeias mais igualitárias, e a segunda por meio de um modelo onde a conquista se dá “à custa da humilhação do outro”, como se verifica nos Estados Unidos e no Brasil, aponta (p. 76).

As elites, a classe trabalhadora precária e os pobres remediados, os desarmados (faço menção na ordem hierárquica de influência e manipulação, penso), estão dotados de um senso (diria essencialmente proporcional) de “enobrecimento moral”, e assim olham para os marginalizados e humilhados como “contraponto negativo” (p. 76). Pondera o autor acerca dos que ocupam as maiores posições e se comportam como acima da moralidade dominante em regras que foram determinadas para justificar seus privilégios, e assim explica a “desfaçatez de classe” que “a tudo se permite”, além do efeito do crescimento da pregação “moralista e conservadora” dos evangélicos que serva como boia de salvação para quem é vulnerável e carente de autoestima e reconhecimento nesse âmbito social (p. 79).

Jessé de Souza aponta duas principais justificativas morais: a primeira, o preconceito regional que mascara o racismo “racial” contra mestiços e negros do “Norte”; e a segunda, na divisão entre o pobre honesto e o pobre delinquente que camufla o racismo “racial” na questão da estigma do negro como bandido (p. 77). O sociólogo segue em sua tese sobre o racismo “racial” como algo disfarçado ao longo das relações sociais por narrativas de outros tipos de preconceito, o que alcança uma ideia de crime que é artificializada. Para ilustrar, argumenta sobre as elites e as considera poupadas do conceito de “crime” sobre determinados atos, enquanto se desdenha dos marginalizados, controla-se a imprensa e a indústria cultural (aqui há um antagonismo com a ideia da ocupação gramsciana presente na visão conservadora) e se inventa um criminoso “ad hoc” para desviar a atenção objetivando destacar o crime do pobre e do preto, estendendo a questão também à religiosidade, à música e à homossexualidade (p. 78).

Esta visão do sociólogo notadamente se opõe a um viés comum em análises influenciadas pelo marxismo; refiro-me ao economicismo, entendo, ao ver que indica a compreensão de uma sociedade “na sua lógica de funcionamento mais totalizante, nas “justificativas morais” que legitimam uma determinada ordem socioeconômica contingente e arbitrária” (p. 77), eis o ponto de maior referência que identifiquei nesta crítica do sociólogo.

566. 01/05/2026 16h42. Prefiro promover um encontro do melhor do que pude extrair de cada autor, embora imagino que a divergência ideológica entre as duas linhas de pensamento sejam tão intensas que seria improvável ver seus respetivos defensores à mesma mesa debatendo o tema da pobreza de forma cordial, infelizmente. Entendo que um dos benefícios de não estar enviesado com grupo ideológico está no que chamo de “liberdade literária”, onde se pode apreciar autores com alinhamentos antagônicos sem ser constrangido, importunado ou policiado pelo que predomina em determinada bolha. Às vezes recebo comentários de pessoas sinalizando iniciativa de abrir alguma discussão comigo ou contestação por conta de algo que escrevi neste espaço. Sobre isso: 1. Não é propósito de Uma leitura ao dia promover qualquer tipo de debate. Este espaço é uma espécie de relicário de experiências de leitura e releitura desde a minha adolescência; 2. Pretendo deixar registros dessas experiências aqui para as pessoas que me amam, estão na minha intimidade, além das que prezam por mim no sentido de provê-las a um entendimento melhor de meu ser; 3. Sou austrolibertário na essência, porém aberto a ideias que são consideradas normalmente conservadoras e outras classificadas como progressistas; 4. Aplico uma política que não me impede de ler autores de cosmovisões diversas, de maneira que seja possível aprender com todos. 5. Não tenho o propósito de me filiar a grupos, partidos ou organizações, participar de eventos, aulas ou qualquer outra atividade presencial, ressalvando as instituições que prestam ajuda humanitária e sejam comprovadamente apolíticas.

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