Imagem: A Casa Humana

Ana Cláudia Quintana Arantes

“De todos, o ‘ateu convertido’ é o ser humano em quem percebo o maior sofrimento espiritual diante da morte.”

Obra: A morte é um dia que vale a pena viver. A dimensão espiritual do sofrimento humano? Sextante, 2019, Rio de Janeiro. De Ana Cláudia Quintana Arantes.

Em um leito de hospital é comum haver um (re)encontro com “questões muito profundas da existência humana relacionadas à espiritualidade”, abre o tópico a doutora Arantes, lembrando também um certo pragmatismo do brasileiro quanto à religiosidade (p. 128).

Entre 2005 e 2006, quando seminarista, costumava realizar visitas ao Hospital do Câncer de Pernambuco (HCP) que se davam por indicação de um pastor ou líder de alguma igreja que eu tinha proximidade. Um pastor à época me disse que a experiência de simplesmente ouvir os pacientes no HCP lhes proporcionava um conforto que normalmente superava qualquer apelo de sentido meramente religioso. Fui orientado então a evitar qualquer diálogo sob viés doutrinário; o mais importante era simplesmente lhes dar atenção.

Nesta experiência aprendi muito com uma “senhora sexagenária, muito pobre, com o marido terminal” que “havia pouco tempo perdido um filho, e o outro ‘descasado’ e constantemente desempregado, além de um neto mergulhado nas drogas” [567]. Olhar para as pessoas mais próximas do terminal é tão importante quanto o paciente.

Vi pessoas muito religiosas partindo com serenidade(p. 130) e também vi o que a doutora afirma neste livro acerca de a maioria das pessoas se dá conta da importância da religiosidade quando toma consciência da iminência da morte (p. 129), assim como conheci o que a autora relata sobre ateus com “processos de morte mais serenos” (p. 129). Aqui penso o quanto o ateísmo não é necessariamente uma condição que leva ao maior sofrimento no estado terminal, e isso aprendi também com a serenidade bem filosófica de um senhor terminal que conversei em 2005. Ele se declarou ateu e contou um pouco de sua história de vida. Encaixava-se no tipo “não convertido”, ou seja, um “ateu essencial” que passara a vida inteira sem uma experiência religiosa e que se sentia bem espiritualmente com o caminho que escolheu. Foi quando aprendi que é possível ter uma vida espiritual sem professar uma religião e até mesmo se declarando ateu. Ao comentar isso com um colega de sala, fui questionado sobre minha própria fé sob a lógica religiosa doutrinária (bastante limitada) “de que não é possível morrer bem sem Deus”.

Um tempo passou, era 2006, e pude conversar com um jovem paciente que tinha sido membro de uma igreja evangélica pentecostal. Com 26 anos tinha acabado de entrar em fase terminal. A serenidade que aprendi com o ateu essencial contrastou com o sofrimento e a raiva que senti ao seu lado. Era um ateu convertido; tinha deixado a religião, tornou-se um militante em favor da descrença a partir de experiências bem desagradáveis que passou por conta da descoberta de sua homossexualidade. No começo foi chamado à disciplina, mas quando notaram que era “irreversível” (desapontando a crendice de que a homossexualidade é um tipo como conversão), ele foi “eliminado” (excluído do rol de membros) e sentiu uma grande dor emocional que foi seguida por uma revolta que o acompanhou até então. Boa parte dessa ira se deu, entendo, pela confusão que ele teve do sistema religioso que acreditava, com Deus. A sua “ideia de Deus”, enquanto limitada ao que aprendera na igreja pentecostal, o desapontou profundamente em um momento delicado, na descoberta da sua homossexualidade. Apenas escutei seu desabafo e chorei junto, inclusive ao meditar, na ocasião, que tinha observado, em outras comunidades religiosas, o quanto esse problema causa dores difíceis de serem curadas.

Um ponto na leitura que me identifiquei bastante foi acerca da verdade ser uma “experiência” e não um “conceito” (p. 133). Recordei-me do quanto a afirmação “eu acredito” me passou a ser vista como uma mera expressão superficial. Isso me faz pensar sobre o que ocorre quando me perguntam se acredito “mesmo” em Deus, e afirmo que “sei que Ele existe” e aceito os limites da razão que me são evidentes para não explicar o que não posso explicar, sendo então uma experiência pessoal, subjetiva, transcendental, de uma realidade que percebo pela fé a qual não tenho necessidade de convencer outrem de sua procedência. Essa concepção passei a ter um tempo após o seminário (imagino que a partir de 2010) quando então amadureci que é tão-somente perda de tempo discutir religião no sentido de qual seria a verdadeira, cabendo-me refletir sobre questões éticas relacionadas e que estão em pauta nas formas de “regras, normas, políticas, comportamentos, vantagens, e desvantagens, custo e benefício” (p. 134).

Sobre a síntese que a autora apresenta acerca do estudo “Qual o preço de sua alma?” (pp. 130-131), pensei o quanto a fé que se associa a “valores deontológicos sobre o certo e o errado”, imagino que também envolvem a mente de um ateu quando regida por princípios e valores, e não pelo signo “Deus”, pois são elementos intangíveis que podem até mesmo serem mais sofisticados e virtuosos que os de uma pessoa religiosa. Um ateu pode ter fé na vida, na bondade, no amor, na comunhão entre seres, semelhantemente a um religioso com fé em Deus, o que é diferente de acreditar, e aqui aproveito a sabedoria de um paciente morador de rua, “Francisco”, que fez a doutora Arantes experimentar uma “epifania” ao aprender a diferença entre ter fé e acreditar:

“Acreditar, a gente pode acreditar em tudo. Eu acredito em demônio, eu acredito em bruxa, mas fé só tenho em Deus” (p. 135).

567. 21/08/2025 22h37

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